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Choro, uma prova de amor

Em Angola trabalhei como directora-geral num colégio composto por 3 edifícios: o primeiro era uma creche; o segundo uma escola primária e o terceiro uma escola secundária.
A primeira vez que visitei a creche estranhei o silêncio que por ali existia; essa sensação de estranheza acompanhou-me ao longo das várias visitas que fiz. Ainda que nada alarmante ocorresse, algo não batia certo. Já fora do colégio, volta e meia essa espécie de angústia voltava a emergir quando me cruzava na rua com outras crianças, a maior parte bebés, a quem parecia faltar aquele brilho nos olhos típico desta fase.
Supostamente a ausência de choro é óptima, penso que se poderá dizer que é aquilo que todos desejamos - uma criança que está sempre bem. A minha passagem por Angola permitiu-me perceber que essa utopia tem um lado muito negro e que por isso o choro de uma criança vale tanto como o seu sorriso.
Um dia decidi passar uma semana inteira na creche. Cancelei todas as reuniões e adiei algumas tarefas; precisava de compreender o que me causava aquela sensação de angústia. Bastaram-me dois dias para encontrar a (simples) resposta - as crianças, muitas delas com menos de 2 anos, haviam aprendido que apenas podiam contar consigo. Elas caíam, elas precisavam de ajuda para comer, elas necessitavam de colo, mas limitavam-se a tentar resolver os seus problemas sem manifestar qualquer sinal exterior de desconforto/pedido de apoio.
Desde cedo aprendemos a emitir sinais de forma a que o meio dê resposta às nossas necessidades. Nos primeiros anos de vida, a nossa capacidade para nos expressarmos verbalmente e o nosso desenvolvimento cognitivo (intelectual) estão em construção, o que nos leva a gerar comportamentos mais simples, como o choro, com o intuito de obtermos de quem nos rodeia a resposta de que precisamos. Quando o comportamento gerado (choro) não nos permite obter qualquer resposta, interiorizamos que não é eficaz e o mesmo tende a extinguir-se.
Sei que algumas de vós poderão estar a ler isto e a pensar que vão ignorar o choro como forma de o travar. Antes que o façam, deixem-me acrescentar mais uma informação - quando um comportamento se extingue existem toda uma série de aprendizagens subjacentes, sendo que no caso do choro são duras. Os nossos filhos aprendem que devem contar apenas consigo, não vêem em nós figuras disponíveis, estáveis e, muito pior do que isso, confiáveis; tudo isto condiciona a forma como percepcionam o mundo (um local hostil) e como se vêem a si próprios (não merecedores do amor de quem os rodeia).
Voltando às várias crianças de quem vos falei, estas haviam desistido, perceberam que estavam por sua conta, que nenhuma das pessoas que as rodeava as iria ajudar, e por isso entraram numa espécie de modo sobrevivência em que nada pedem, nem nada esperam - percebem quão desolador isto é?!
Acolher o choro é diferente de ceder ao mesmo. Eu posso mostrar empatia, transmitir a minha disponibilidade para tentar perceber o motivo do choro, sem que isso reforce o comportamento; também posso dar espaço para que o meu filho chore, permitindo que o faça sem que veja em mim alguma indiferença e despreocupação.
Por muito desagradável que seja escutar/ver um filho chorar, já pararam para pensar no que é que tal significa? Este comportamento demonstra que a criança confia em vocês, que vos vê como figuras disponíveis, interessadas e capazes de resolver o seu problema, que se sente confortável em expor as suas vulnerabilidades, isto é, que se entrega - quão importante isto é para vocês?
Não há nada mais belo do que um sorriso de uma criança, nem nada tão determinante como o seu choro.