0

Diferença e Diversidade



Achamos que vivemos numa sociedade que aceita bem a diferença. Talvez aqui isso seja mais verdade que noutros lados. Mas o que tenho vivido e observado é que ser diferente nunca é fácil, e que estamos longe de saber aceitar a diferença. O nosso dia a dia está cheio de pequenos acontecimentos anti-diversidade. Agora que estou mais atenta e sou sensível a esse assunto, vejo mil e uma coisas.
Acho que todos ganhamos em ter um mundo onde a diversidade é celebrada. Mas mesmo achando isso, é muito difícil educar para aceitar a diferença. Como se faz isso? A minhas filhas andaram numa escola com uma mistura grande de crianças e pais muito diferentes, o que ajuda. Sempre foi um dos aspectos que mais gostei naquela escola.
Mas uma vez a R. chegou a casa e disse: "tenho uma chinesa na sala". Confesso que não gostei nada da forma e do tom como ela disse isto, mas achei que se reagisse só iria piorar. Acabei por lhe perguntar que línguas ela falava. Uma vez que R. vive e convive com muitas línguas, é uma questão com a qual ela se identifica. Continuamos a conversar sobre línguas e contei-lhe da amiga do M., que quando foi para a escola não falava Português. E virei a conversa. Passou a não ser sobre uma menina chinesa, sobre nacionalidades e origens, mas sim sobre as línguas que cada um fala. Passados uns dias, fui buscar a R. à escola, cruzámo-nos com a menina e R. foi a correr abraçá-la. Fiquei contente. Mas isto não basta. Na mesma escola, R. contava que uma amiga se queixava porque a chamavam de preta. Nessa altura apercebi-me que ter uma mistura de meninos não é suficiente para travar esse tipo de comportamentos.

Ultimamente comecei a observar que a K. é excluída em determinados contextos, e que isso é consequência da sua cor da pele, e que ela própria adotou já algumas respostas para se proteger. Não é tanto um comportamento racista dos outros (ainda), mas uma reação ao que é diferente. Ela vai sempre ser diferente e vai sempre ser confrontada com essa diferença. Em casa, essa diferença é celebrada e valorizada, mas no resto do mundo não é assim. Agora a minha preocupação alterou-se e o meu esforço vai para ajudar a K. a proteger-se e saber lidar com a sua diferença e com comportamentos menos simpáticos. Mas gostava muito que todos conseguíssemos educar os nossos filhos a saber aceitar e valorizar a diferença. A melhor coisa para isso é nós próprios sabermos fazê-lo.