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Não faz mal...



Assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental, tema que nos toca a todos e que nem sempre recebe a atenção merecida. Falar deste tema implica olharmos para dentro e automaticamente, pensarmos na nossa própria sanidade e na do mundo em geral.
Não há para mim uma definição exata de saudável mentalmente, na mesma medida em que não há uma formula unica de como se deve viver a vida, de como nos devemos relacionar com os outros, do que podemos ou não sonhar, ou de como devemos sentir. Mas na imensidão da variedade que enriquece a vida mental, há percursos comuns a todos nós, inerentes ao nosso desenvolvimento global que, pela forma como vão sendo trilhados, conduzem ou não na direcção de uma vida mentalmente saudável.
Assim, em tom de ode à saúde mental, arrisco a dizer que:
- Nos braços do amor nasce um Eu, que ganha vida e se unifica quando é olhado como tal. Quando o amor abre os braços e estende caminho o Eu cresce e aguça a curiosidade, ganhando vida própria. 
Cresce a observar e a identificar-se. A perceber que tem um lugar e um papel principal e que existem os outros, diferentes e iguais a si, aqui e ali. 
Copia e imita, para depois transformar na sua própria tela. 
Levando o amor consigo, aprende a amar e na viagem da vida, o Eu vai percebendo o que é sentir em todas as suas formas. 
Descobre que sentir é viver, ainda que o sentimento às vezes doa, ou destrua. Não faz mal...viver é construir e reparar com a cola do amor.
O Eu tem sempre um espaço onde guarda o que lhe é útil ou especial, tralhas mentais que resgata sempre que quer ou precisa, guardadas lado a lado, com coisas de que não gosta, mas que insistem em ficar. Não faz mal...as defesas seguram-nas e os sonhos resolvem-nas.
Por vezes, também sente de uma forma que não lhe agrada e parece que o amor se desvanece, mas no meio da aflição descortina a utilidade de uma boa zanga ou de uma enxurrada de lágrimas e aprende que saudade só existe, porque realmente houve algo muito bom. É nestas vezes que precisa dos outros Eus, embora nem sempre o saiba... mas não faz mal. Eles saberão.
Por vezes sente-se perdido, em conflito interior porque a vida obriga a escolhas e nem todas são fáceis. Mete os pés pelas mãos e arrepende-se. Não faz mal... vai descobrir que nem sempre se acerta.
Na relação com os outros, vai e vai-se transformando, encorporando e partilhando, colecionando e abdicando. Às vezes transformar custa, mas não faz mal...são as dores de crescimento.
O Eu questiona-se muito, ou recusa-se a pensar. Olha muito para si, ou só tem olhos para os outros. Compara e equipara. Desdenha e quer comprar. Não faz mal...se não for para fazer maldade.
Ama-se e desama-se, ampara-se e deixa-se cair. Erra e aprende, o Eu que existe e que persiste. Que não se perde nem se difunde, que se restaura e pede ajuda. 

Assim segue o Eu, que saudavelmente se enlouquece com a vida, sem a perder de vista. Que a agarra e toureia, sem se deixar fintar, sabendo que não faz mal, desde que se mantenha o Eu.