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Perdi-me. Alguém me viu por aí?



Hoje vi um post no facebook que me incomodou bastante e achei pertinente falar sobre o assunto. Já tenho visto vários do mesmo género e presenciado ao vivo e a cores aquilo que retratam e a mensagem que passam, deixa-me sempre a pensar não só nas mães, mas mais ainda, nas suas crianças.

O post em questão apresentava fotos de mães com os seus filhos em situações para elas rotineiras, desde a mãe sentada na sanita com um filho agarrado a cada perna, ou a mãe a cozinhar e com um menino de três anos ao peito, outras em que a mãe demonstra não poder dormir porque tem os filhos todos na cama, enfim… toda uma série de situações em que a mãe se apresenta como alguém que se sente sem lugar e tempo para existir, para se cuidar ou para criar limites.

As fotos são acompanhadas de um texto, que basicamente refere que ser mãe é nunca mais poder tomar um banho em paz, ou dormir uma noite de sono. Implica andar sempre com a roupa suja de ranho e não poder ir as compras sozinha. Andar sempre descabelada e desarranjada, embora, totalmente preenchida de amor, responsabilidade, alegria e mais umas quantas coisas maravilhosas.

Eu sei que a maternidade não são só rosas e sei que não há duas crianças iguais, nem duas mães iguais. Mas também sei, que antes de se ser mãe, já se é mulher e que essa parte do ser, não tem que desaparecer com o nascimento de um filho.

Pergunto-me muitas vezes como se sente uma criança que cresce a ver a mãe sempre assoberbada, estafada, desarranjada e desinvestida enquanto mulher. Será que se sente responsável? Será que sente pena da mãe? Como será para uma criança crescer sabendo que a mãe teve que abdicar de tanto para se dedicar ao seu bem-estar, abrindo mão do dela, ou mais ainda, abrindo as duas mãos de si própria! 

Há de facto momentos na maternidade que exigem uma dedicação imensa. Há realmente períodos em que a mãe tem que estar ao dispor, mas não poderá haver outros, em que estando somente disponível, possa acompanhar um filho mostrando-lhe como gosta de si própria ao ponto de se cuidar, de proteger a sua intimidade e a sua privacidade? Não será tão benéfico para um filho, tal como tantos outros cuidados, ter uma mãe que protege a sua relação com o pai, mantendo-se bonita para ele e reservando algum tempo para o casal?

Penso que algumas mãe, em todo o seu empenho e dedicação aos filhos, se esquecem de que eles observam com os seus olhos pequeninos, ao pormenor cirúrgico e sentem, com o seu coração pequenino, com uma intensidade enorme, auscultando como vai a relação entre os pais, como vai a relação de cada um consigo mesmo.

Não há nada que dê mais segurança a uma criança do que sentir os pais felizes. Não há nada que pese mais a uma criança, do que sentir que é um peso para eles.

Penso que de facto, esta forma de estar na maternidade, em que nasce uma mãe e morre a mulher, não é trazida pelos filhos, mas sim já preexistente na vida de algumas mulheres, que encontram assim, no papel de mãe, a sua razão única de existir. Por muito difícil que se torne o ser mãe, por muito que exija, uma mulher que realmente se ama e se sente amada enquanto tal não se dispõe a abdicar do seu ser para dar lugar a outro. Dispõe-se sim a fazer cedências e adaptações, mas provavelmente sem necessidade de viver numa permanente pele comum, onde nem mãe nem filho podem realmente existir.

Nasce a mãe e morre a mulher, esquecendo-se que um dia talvez não ressuscite.

Nestas situações também me questiono muito acerca dos homens ao lado destas mulheres. Onde andam? Não os incomoda? Não sentem falta da mulher que se some? Porque não as resgatam e as fazem lembrar-se de si?! Gostam delas de qualquer maneira?! Que maneira será esta de gostar, em que “a maneira” não importa?

Ser mãe não tem que ser desta forma. Ser mãe pode conjugar-se com ter espaço para si, para o casal, em querer e conseguir cuidar-se. Cuidar-se para si própria, para alguém mais e até para os filhos porque na realidade, uma mãe que deixa de ser mulher, não está lá por inteiro, pois há uma parte de si que desaparece, que se perde.

Os filhos têm direito a conhecer as mães inteiras e as mães têm direito a ser inteiras, pois só assim, se está realmente em relação.