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O MEU FILHO TEM INCONTINÊNCIA FECAL



O meu filho caminha para os 6 anos e sofre de incontinência fecal, um problema que lhe está a mudar a personalidade alegre e a destruir a confiança. 

A incontinência fecal é uma perturbação de eliminação das fezes que ocorre em crianças de 4 ou mais anos e que consiste na falta de controlo durante o dia ou durante a noite. A criança com incontinência fecal tem fugas involuntárias em lugares inapropriados, de forma consecutiva e durante um período de tempo. 

No primeiro dia em que chegou da escola com as cuecas sujas desvalorizei e estava longe de imaginar que o que achei ser um descuido viria a ser um diagnóstico. Como qualquer mãe com filhos em idade escolar, achei que era mais uma virose que trazia da escola como tantas outras que já teve e que tinha sido apenas uma distração. Dei ultralevur e controlei a alimentação. 

Pouco tempo depois os sintomas voltaram e achei que era uma recaída da virose. Fizemos nova dieta alimentar e os descuidos melhoram, mas estranhei ocorrerem mais do que uma vez ao dia, sendo ele um miúdo que nunca tinha manifestado problemas intestinais e em viroses anteriores nunca tinha acontencido. 

Mais uma semana e novamente... com poucos dias de intervalo um novo episódio e uma criança que começava a chegar da escola cada vez mais frustrada, triste, envergonhada e irritada com a situação.

Por um lado, a vergonha de cheirar mal perto dos amigos ou ser gozado, por outro lado, o medo de dizer à professora o sucedido e ouvir um raspanete. Bem sabemos que nem sempre há sensibilidade nas escolas para lidar com estes descuidos, muitas vezes catalogam-se logo os miúdos de "porcos"com uma expressão menos feliz, mesmo que sem maldade, mas que pode ter efeitos muito negativos. 

Em casa, tentava desvalorizar ao perceber a vergonha dele, mas por outro lado precisava fazer algumas perguntas obrigatórias para identificar possíveis motivos. E ele cada vez menos colaborativo nas respostas. 

No terceiro episódio, após verificar que se estava a estabelecer um padrão e que não tinha lógica ser uma virose recorrente consultei a pediatra que nos confirmou o diagnostico. Ficámos a saber que é um problema mais comum do que se pensa e que requer alguma atenção, sobretudo porque tem efeitos psicológicos muito negativos e é limitadora no seu desenvolvimento e funcionamento. Tal como já vinha a notar. 

Efeitos na criança: 
Vergonha intensa 
Culpa 
Irritação 
Baixa autoestima 
Isolamento 
Recusa em participar em actividade sociais (dormir em casa de amigos, passeios da escola ou estar em casa de familiares). 

O meu filho nunca foi um bebé de cólicas, o desfralde não foi um drama, nunca teve prisão de ventre e de um momento para o outro tudo mudou. Nunca podemos dar nada como garantido. A criança resolvida e independente que já ia ao WC de porta fechada deu lugar a uma criança reservada, frustada e insegura. Regrediu e voltou a pedir ajuda para as idas ao WC como quando estávamos na fase do desfralde. E, se antes ficávamos à porta sem autorização para entrar, agora temos que ficar lado a lado a dar o apoio solicitado. 

Nos primeiros dias pós diagnostico senti uma tristeza gigante perante a impotência de não conseguimos resolver o problema com a facilidade com que tratamos uma febre. Não é fácil perceber que a nossa criança feliz está a sofrer e a mudar de personalidade por arrasto. O nosso coração fica mirradinho. 

Depois coloquei a máscara de super-mãe, limpei as lágrimas e assumi esta batalha, que é de todos. Minha, dele e do pai. 

Pesquisei mais sobre o tema e fiquei também a perceber que pode ter várias origens (até psicológicas ou até mesmo por abuso sexual). E sim, houve um dia em que tive que lhe perguntar se alguém lhe tinha tocado de forma inapropriada ou o tinha aleijado. As minha pernas tremeram e a minha boca secou até ouvir a resposta inocente "limparam-me o rabo na escola". Voltei a ter fôlego a seguir. 

No caso do meu filho, que até já nos tentava esconder as cuecas ao fim do dia e que nunca queria ir passear durante as crises, percebemos que o problema se manifesta quando acumula fezes duras no intestino durante alguns dias. Devido à dor causada para as libertar, tem receio de expelir e retrai. Ao retrair muitas vezes faz com que exista uma acumulação excessiva que impede a passagem das fezes mais moles que acabam por contornar essa "bola" dura e originar fugas involuntárias acompanhadas de gases, em pequenas quantidades. 

Sendo um problema funcional e detectada a sua origem, requer muito acompanhamento e controlo alimentar para evitar fezes duras. Ao nível psicológico estamos a trabalhar a auto-estima com elogios e reforços positivos sempre que concluímos mais uma semana com sucesso. Embora não façamos deste o tema principal dos nossos dias, tentamos até desvalorizar perante ele para que não se sinta pressionado, vamos tocando no tema levemente. Está também a fazer um regulador intestinal probiótico para evitar o cenário de prisão de ventre e efeito bola de neve. 

O suporte psicológico é um pilar fundamental e é também muito importante respeitar a criança e não contar a outras pessoas, além dos professores. 

Esta luta pode levar alguns meses mas é expectável que com a recuperação da confiança e controle intestinal o problema se resolva. Um passo de cada vez. 

Se tiverem filhos em idade escolar com episódios destes, talvez seja bom prestar atenção aos sintomas. A maternidade é mesmo um desafio constante.