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Mães na Libéria, histórias de resiliência e tabu


No meio do nada em frente aos portões grandes azuis, agarrei nalguns dos sacos que tínhamos na parte detrás do jipe, respirei fundo e dirigi-me para a pequena entrada destinada aos visitantes. Não tenho por hábito visitar orfanatos ou outras instituições similares, quando estou a trabalhar ou em África ou em qualquer outro lugar, porque sempre me pareceu estranho estas visitas de piedade sem acção concreta. 

Tenho horror da caridade que mais parece um acto de massajar o ego do que realmente olhar pelo outro e suas necessidades. Expor necessidades alheias. Talvez esteja errada, mas sempre tive este pudor. 

Hoje, tenho um propósito, levar roupas e outros bens, incluindo um baloiço, para estas crianças. Assim que entro, o meu coração de mãe acelera, sinto um nó na garganta e tenho a boca seca. O meu colega nacional inicia as apresentações, um tanto exageradas, como se trouxéssemos nos sacos de plástico, a salvação do mundo. Estava grato, eu sei, é ele alguém humanitário e empático mas os elogios desmesurados deixaram-me a mim e ao meu outro colega embaraçados e nus ao olharmos para os sacos que agora mediante aqueles elogios pareciam tão pequenos e vazios. 

Nesta altura, já nos havíamos habituado aos sorrisos Liberianos, a generosidade de quem não tem nada, ao calor que nos deixa suados e à floresta verdejante e nublada, típica da floresta tropical. 

Também já nos tínhamos apercebido de que a Libéria sofre de má reputação resultado de anos de guerra civil, senhores da guerra, diamantes de sangue e mais recentemente da terrível doença, o ébola. 

O que nos viemos a conhecer foi uma outra Libéria que nunca vem nas notícias. Uma Libéria feita de histórias de perseverança, generosidade, de muita luta e humanidade encontrada nos lugares mais inesperados. Aquele abraço da gestora do Hope for the Nations na região Nimba, soube-me a casa, não a queria largar e senti vontade de chorar ou não fosse eu terrivelmente Portuguesa sempre com o fado na alma e o Tejo nos olhos. 

– Olhe o que temos aqui não é suficiente. São só umas roupas e um baloiço feito pela minha irmã, alguns brinquedos mas queríamos poder ter trazido mais… - disse envergonhada, enquanto olhava para as crianças atrás desta mãe substituta. O seu olhar grato disse tudo. 

Enquanto viam o que tínhamos trazido olhei de novo para as crianças, foi então que um menino de cerca de dois anos dirigiu-se a nós, dois estrangeiros ambos sem palavras esticando a mão para nos dar um passou-bem. Caiu-me tudo ao chão. Baixei-me para nos olharmos nos olhos e esticando a mão para lhe dar um passou-bem passamos logo a um abraço. O meu coração perguntou ‘como é possível haver crianças assim sem pais!’, a minha cabeça respondeu. 

Enquanto colocávamos o baloiço, foi-me explicado como chegavam àquela casa, estas e outras crianças. Regiões como a Nimba, embora seja a mais populosa, foi também palco dos mais sangrentos episódios da guerra civil, tendo sido porta de entrada do vírus do ébola, e apesar de ser uma zona rica em minério, não é suficientemente desenvolvida. 

Nos últimos anos programas educacionais e de desenvolvimento tiveram pouco impacto fora dos grandes centros populacionais e mulheres e mães são quase sempre as mais prejudicadas, ou por não terem acesso a estes programas ou por não terem tempo pois trabalham nos campos, tratam dos maridos e dos filhos primeiro. Sim, tratam dos maridos. 

Programas de questões do género são ainda muito básicos e adaptados a realidades ‘a mãe prepara a água para o pai, depois dos filhos e só depois trata de si antes de ir a correr para o trabalho!’ foi o que ouvi a moderadora de um destes projectos dizer num workshop. 

A representante do Ministério do Género e do Desenvolvimento em Nimba, disse que a gravidez resultado de uma violação em menores é um problema ainda. Gravidez entre casais que não tem posses para ter um casamento religioso e um tradicional está também a crescer, sendo que estas mães são normalmente abandonadas à sua sorte após o nascimento da criança. E o que acontece com estas crianças? Muitas são entregues em orfanatos, outras abandonadas e depois há aquelas mães que tentam a maternidade com tudo contra mas a ignorância toma lugar. E é ai que aparece esta instituição, onde acolhe crianças órfãs e não só, que sofrem de subnutrição aguda. 

Não havendo fome na Libéria no sentido lato de catástrofe ampla, existem episódios de fome. Mas o problema destas crianças é mais profundo e mais trágico porque são vítimas de tabus e mitos ainda muito prevalentes na sociedade Liberiana, mais ainda em zonas remotas. 

Façamos um pequeno exercício de troca de vida: imaginemos sermos mães recentes, esperamos amamentar (ou não!) e não temos leite. Aqui em Portugal, ficamos com um nó na garganta e sentimo-nos culpadas por algo que não controlamos, mas vamos à farmácia e compramos o tal leite em pó. Der por onde der a criança tem que estar alimentada. 

Agora imaginemos o mesmo cenário numa zona remota e pobre, a mãe não tem leite e o bebé tem dias. Pobre, sozinha, com pouca ou nenhuma escolaridade, muitas vezes jovem demais, começa a notar que o bebé esta a perder peso, mas não sabe o porquê ou o que fazer, nem onde procurar ajuda. Os vizinhos começam a notar que a criança esta a perder peso e corre o boato de que a criança esta assim porque esta habitada por um espírito maligno. São então abandonadas. 

A pressão nestas mães e pais (porque nem sempre são mães solteiras) é diária, agressiva e há ameaças de assassinato porque agora toda a aldeia sente-se ameaçada e a criança tem que partir. Inimaginável? Sim, mas é uma das razões pelas quais estas crianças, as com sorte, acabam na Hope for the Nations. Outras são abandonadas pelos pais, mas são então levadas por avós, vizinhos, que apesar de também não terem escolaridade tem mais senso comum que os mais novos e procuram ajuda. 

Outras jovens mães, isto porque não quero generalizar que o que acabei de relatar acontece por toda a Libéria e com todas as mães desfavorecidas, algumas levam os próprios filhos quando após procurar ajuda descobrem onde podem salvar os seus filhos. 

Foram estas as histórias de algumas das crianças que encontrei naquela casa, algumas sem ninguém, encontraram ali uma família substituta à espera de uma família. Outras famílias esperam pelo restabelecimento da saúde de seus filhos e no meio do nada encontraram quem os abraçasse a si e a sua dor. 

As mulheres e homens que encontrei nesta instituição fazem um trabalho extraordinário com parcos meios de algum apoio internacional, mas com um sentido de dever e empatia como nunca vi na minha vida. Quando finalmente colocamos o baloiço a funcionar, fiquei a olhar as crianças a baloiçar umas sorridentes outras a chorar com medo da novidade. 

Enquanto os observava a todos, pensei que a Libéria é tão complexa quanto maravilhosa. Lembrei-me por exemplo, das mães que em 2003 forçaram o temível senhor da guerra, Charles Taylor a comprometer-se com as negociações pela paz que acabariam com a guerra civil. Para o garantir (com ameaças de abstinência sexual e pragas pelo meio!) seguiram os líderes políticos para as mesas das negociações no Gana, vestidas de branco e rodeando a mesa de negociações forcando e infantilizando os homens a chegarem a um acordo, tal mães que obrigam os filhos a pedir desculpa. 

Antes de nos virmos embora, olhei mais uma vez para trás, e vi que também esta organização existe para que nenhuma mãe se sinta sozinha.