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Entre irmãos


Passei tanto tempo a pensar em dar um irmão ou irmã à minha filha, que nem pensei muito no que iria acontecer quando finalmente chegasse. Imagino que com uma gravidez o processo seja diferente, uma vez que os filhos podem ver o crescer da barriga e ir interiorizando e trabalhando a ideia da chegada de um irmão. Com a adoção isso não existe. Há a ideia partilhada, mas que é um pouco abstrata, e depois do telefonema há um período curto de interiorização da ideia. No nosso caso foram 15 dias. E na verdade não pensei muito nisso pela perspetiva da nossa filha mais velha até há pouco tempo. Ela estava aqui, desejava e sonhava com uma irmã, e de repente chega o dia em que lhe dizemos que vai acontecer, e 2 semanas depois já cá está. Se para nós foi intenso, para ela deve ter sido muito mais. Acho que ela demorou uns 3 meses a estabilizar desse estado de intensa felicidade e excitação, misturada com uma procura do seu lugar como irmã, e adaptação a uma nova dinâmica de família. 
Na verdade, desde a chegada da nossa filha mais nova, passamos muito do nosso tempo a intervir na dinâmica delas. Elas são super amigas e adoram-se, dormem juntas muitas vezes (de mão dada...), mesmo sem ser preciso, defendem-se quando nós ralhamos, e apoiam-se. Mas também brigam imenso, fazem disparates em conjunto, picam-se e sabem melhor que ninguém como se enervarem uma à outra, fazendo uso disso com frequência. 
Não me preparei totalmente para isto. E naturalmente que os 15 dias não me deram espaço nem tempo mental para isso. 
Durante os anos tenho observado que a dinâmica de irmãos é caracterizada por muitas destas coisas, e que muitos pais, tais como eu, passam muito tempo a intervir nas brigas ou interações entre eles. E que esta intervenção é mais difícil do que parece. Li algumas coisas numa fase inicial, sobretudo em formas de estimular a sua proximidade, algumas que gostei e que vou tentando fazer. Por exemplo: i) em jogos e desafios em família, os irmãos serem uma equipa contra os pais; ii) evitar as comparações, e sobretudo evitar atribuir valor a elas; iii) estimular a resolução de conflitos entre eles e servir apenas de moderador; iv) tratar cada irmão de forma única e não necessariamente igual; v) permitir e aceitar a partilha de sentimentos negativos em relação aos irmãos. De certeza que cada um de nós poderia contribuir para aumentar esta lista. Este é só um começo. 
Continuo a achar que ter irmãos é fantástico!!!