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Sou uma mãe de cesariana



Antes de engravidar, frequentemente me diziam que eu seria uma boa parideira por ter a anca larga. A minha mãe teve três filhos por parto natural e sempre pensei que comigo seria igual. Mas o meu parto não correu como eu esperava. Não foi o parto que desejei. Queria ter sentido o que as outras mulheres que têm filhos por parto normal sentem. A resiliência e aquela força extraordinária para suportar a maior dor de todas: o nascimento de um filho.

Durante todo o tempo em que esperei no bloco de partos, ouvi o sofrimento de outras mães a dar à luz. Ouvi o choro de três bebés ao nascerem e só queria que a minha bebé nascesse também. Só queria tê-la nos meus braços e esse momento parecia não chegar. Posso dizer que após a epidural, praticamente não senti dor durante todo o processo.

Preferia ter esperado mais um pouco, usar a bola de pilates para acelerar o processo e controlar a dor, mas não consegui aplicar nada daquilo que aprendi nas aulas de preparação para o parto. Senti-me triste e frustrada por isso. Posso dizer que passei grande parte do dia a dormir (devido à anestesia) à espera que a Alice nascesse. Sentia que nada estava a acontecer. As águas não rebentaram espontaneamente e, perto das 21h, os médicos decidiram rebentar a bolsa porque eu continuava sem dilatar e o trabalho de parto parecia não avançar.

Ás 22h entrei no bloco operatório, e apertei a mão da enfermeira com toda a força. Estava com medo. Senti tudo: o corte, os clamps a afastarem a minha carne, e o médico a arrancar a Alice de dentro de mim. Olhei para o relógio do bloco operatório e os ponteiros marcavam as 22h20m quando ela nasceu. Foi tudo muito rápido e quando a ouvi chorar senti-me inundada por uma enorme alegria! Assim que ela nasceu, a enfermeira trouxe-a para perto de mim, encostou a cabecinha dela à minha cara e durante breves instantes ficámos ali, coladas uma à outra. Nesse momento esqueci tudo o resto. Quando a vi, já não queria separar-me dela. Era tão linda! Ainda mais do que tinha alguma vez imaginado. Quando tudo terminou, colocaram a Alice no meu peito e aí ficou durante toda noite, junto à maminha. Não consegui dormir. Passei a noite a olhar para ela, para ter a certeza que estava tudo bem.

Sou uma mãe de cesariana. Tenho pena de não ter feito contacto pele-com-pele com a minha filha quando ela nasceu e por não ter aquecido o seu corpo frágil com o calor do meu. Perdi esse momento único. A cesariana roubou-me esse momento, mas devolveu-me a Alice. Ter um bebé de cesariana também é fazer nascer um filho. Dar à luz por cesariana também é ser mãe. Na cesariana também há sofrimento, também se sente medo. Medo da cirurgia, medo que algo corra mal, medo que o bebé não nasça bem. Na cesariana também se tem força, também se tem coragem. E a alegria que se sente quando vemos o nosso bebé pela primeira vez é igualmente transbordante e imensa.