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Monsaraz: uma janela para o Alqueva


Nem sempre é fácil encontrar destinos e programas de lazer para as férias que encaixem na perfeição das necessidades de uma família.  

Bem sei que as famílias não são compostas por "aliens" (extraterrestres) - longe disso -, mas por vezes estas acabam por se sentir assim em algumas unidades hoteleiras. Em parte devido aos olhares reprovadores dos outros hóspedes quando as crianças decidem ser crianças e gritam, pulam e dançam à beira da piscina ou devido às reclamações dos vizinhos do quarto ao lado motivadas pelo choro na hora do jantar ou as birras à noite antes de irem dormir. E a sensação de estar no sítio errado à hora errada acentua-se quando faltam programas para crianças e quando às vezes nem um simples parque infantil ou uma piscina para miúdos existe nas imediações. E nós bem sabemos como os miúdos ficam sem nada para fazer - até nós! 

Por tudo isto, e para vos dar uma ajuda na hora de marcar férias, lancei o desafio à fundadora do Mães.pt de incluir uma rubrica dedicada a escapadinhas em família em Portugal. 

O primeiro destino não podia ser mais óbvio, pelo menos aos meus olhos. Escolhi a terra da minha família paterna - Monsaraz - que além de ser um sítio que me diz muito pelas recordações que guardo, é também um destino que se tem reinventado nos últimos anos com ofertas interessantes e apelativas para quem tem filhos. Monsaraz já não é só uma vila medieval bonita perdida junto à fronteira onde se podia ir rapidamente pôr combustível mais barato a Espanha - se bem que a parte do combustível barato se mantém, sobretudo num momento que os preços não páram de subir, certo?

Além da típica paisagem alentejana que foi enriquecida com o imponente Alqueva no horizonte que tem a capacidade revigorante para carregar baterias até aos pais mais stressados, Monsaraz tem toda uma mística especial de vila medieval que nos transporta para outra realidade e para um mundo de princesas e batalhas que tanto seduz o imaginário dos mais pequenos.  

Esta receita já era quase perfeita para umas férias relaxantes, mas faltavam as atividades para entreter os turistas que estão cada vez mais exigentes e que já não vão aos sítios só para tirar umas fotos. Com o Alqueva veio o potencial da água para o mais óbvio - a agricultura - mas também para as atividades de lazer. Primeiro com o ancoradouro e os passeios de barco, depois com a criação das "casas flutuantes" da zona da Amieira, e mais tarde com as praias fluviais: Monsaraz e Mourão. A par destas iniciativas, começou a valorizar-se também o céu - e que céu, certo? Só quem já esteve no Alentejo, em zonas mais remotas, e sem tanta iluminação, sabe do que estou a falar. Não há céu estrelado como este, sobretudo se for numa noite de verão. E a reserva do Dark Sky nasceu assim da simplicidade de observar algo que sempre esteve lá e hoje já faz parte de muitas das ofertas das unidades de turismo local.  

Mas se ainda não vos convenci com a parte do céu estrelado, do castelo, da planície a perder de vista e até dos passeios de barco, acho que posso ir um bocadinho mais longe (e não, ainda não vou falar da gastronomia, não valem "truques baixos").  

Um oásis com vista para o castelo 

A praia fluvial de Monsaraz, por exemplo, tem uma mão cheia de motivos para se tornar um local obrigatório das vossas mini-férias:  
1º tem uma zona de areia com chapéus que são gratuitos, numa ótica do quem chega primeiro avia-se, mas atenção que não é areia fininha e nem a água é translúcida, até porque estamos a falar de um lago e não de água de piscina ou mar. Aqui deixo uma recomendação: levem sempre chinelos ou daqueles sapatos próprios para andar na água;  
2º tem um pontão com duas piscinas uma mais pequena para crianças e outra mais funda;  
3º há chuveiros, lava pés e casas de banho;  
4º há uma zona relvada com sombras, um bar de apoio e um restaurante com esplanada;  
5º tem um parque infantil e zonas para fazer piqueniques. 

Aqui as lamas, suricatas e lémures são reis e senhores 

Já se sentem mais motivados? E se vos dizer que neste destino ainda podem encontrar uma coisa que os miúdos gostam tanto (ou mais) do que praia, piscinas e água em geral? Falo de animais. Qual a criança que não pede várias vezes por ano para ir ao jardim zoológico ou até para ter um gato, um cão, quiçá um macaco pequenino? Pois bem, aqui há um monte de turismo rural com tudo o que precisa para uns dias relaxantes na piscina a contemplar a vila de Monsaraz e ainda tem a oportunidade de ver, tocar e até alimentar cangurus, suricatas, lebres da Patagónia, lamas, além dos mais habituais gatos e cães. Chama-se Monte de Santa Catarina, fica a meio caminho entre Monsaraz e a praia fluvial e nasceu do sonho de um jovem casal que aqui criou um espaço tranquilo, bastante exclusivo, mas a preços aceitáveis e com uma espécie de mini zoo que faz as delícias dos miúdos que por aqui passam. É um local de tranquilidade e paz que só ganha (na minha humilde opinião) em ser bastante exclusivo por ter apenas cinco alojamentos. Aqui não há aquela loucura de ter 100 pessoas na piscina ao mesmo tempo, é pet friendly, podem alugar bicicletas para passear, podem observar as estrelas com um telescópio e tem um terraço e uma esplanada onde podem aproveitar o sol. E para os pais que não dispensam a internet mesmo em férias, nem que seja para partilharem fotos deste paraíso, o wi-fi é gratuito.   

Spots para relaxar e degustar o melhor da comida alentejana 

Passando à parte da gastronomia que neste caso não pode ser esquecida, acho que não me preciso de alongar muito porque acredito que basta mencionar as açordas alentejanas de tomate ou de alho, as migas de espargos, o ensopado de borrego e até os enchidos e os queijos, já para não falar do vinho da região para acompanhar, que é suficiente para ficar logo com apetite. Recomendo três restaurantes: o Sem-Fim, no Telheiro, e o Lumumba e o a Taverna Os Templários em Monsaraz. O primeiro ganha pontos pelo local escolhido. O velho lagar do Telheiro deu lugar a um restaurante com esplanada com vista para a vila de Monsaraz e reinventou-se, mantendo os utensílios tradicionais de um típico lagar de azeite, mas com um toque de modernidade e originalidade. Este espaço foi reconvertido por um holandês que se apaixonou por Monsaraz e que se mudou de armas e bagagens para esta vila alentejana. Hoje o espaço é explorado pelo filho que a par deste negócio também organiza passeios de barco, neste caso numa embarcação que foi trazida diretamente da Holanda e reabilitada, pelo que este é o sítio perfeito para se informarem dos horários e preços dos passeios. Já o Lumumba é dos restaurantes mais antigos de Monsaraz. Aqui é tudo rústico e terra a terra. As doses são generosas e a vista para o Alqueva é impagável. Não há mordomias, mas a comida, essa é sem sombra de dúvidas o sucesso deste espaço antigo, mas cheio de alma. A última sugestão já é mais moderna. Onde hoje é a Taverna Os Templários era há uns anos a casa de uma prima minha. Ainda hoje quando lá entro sinto como se estivesse a entrar diretamente para a sala dela e há momentos em que me perco no horizonte do Alqueva e sinto como se estivesse ainda na sua varanda. É um espaço moderno com sala no interior e um terraço moderno com o Alqueva e Espanha a servirem de moldura. A variedade de pratos típicos é irrepreensível. Já se preferem um spot para lanchar ou beber café, tenho outra dica e chama-se Xarez. O espaço interior é pequeno, mas a esplanada é extensa e permite perder o olhar nas planícies alentejanas, mas sem direito a Alqueva porque é do lado oposto. Aqui também há uns docinhos bons e típicos e também pode ser uma opção para jantar nas noites mais quentes.  

Monumentos que devem visitar   

Ir a Monsaraz obriga a algumas caminhadas e a muitas subidas e descidas, sempre em calçada de xisto, o que quer dizer que saltos altos são mais ou menos de evitar, dependendo da coragem e destreza da mãe, pois está claro. E entre muitas ruas estreitas, subidas e descidas a pique e paredes caiadas, o ideal é deixar-se levar. Entrar na vila é logo impactante, pela arquitetura da porta principal e respetivas torres, uma com um relógio e com um sino que assinala as horas e as meias horas e outra que pode subir para contemplar uma vista quase de 360 graus. Quando entra na vila vai certamente perder-se com o comércio local, não existem muitas lojas, mas as que existem remetem-nos para o artesanato da região, nomeadamente para a olaria aqui tão bem representada.  

Em relação a monumentos, é obrigatório visitar o Castelo e a Torre de Menagem; a Igreja de Nossa Senhora da Lagoa que foi erguida sobre as ruínas de uma igreja gótica no século XVI; as imponentes entradas em torno das muralhas - Porta d´Évora, do Buraco e d'Alcoba -; a Casa da Inquisição logo depois de descer a Travessa do Quebracostas (o nome diz tudo sobre a inclinação desta rua); e ainda a Ermida de São Bento que fica fora das muralhas principais e que infelizmente está praticamente a cair, mas que tem uma vista especial. Quando aqui chegar vai pensar: «valeu a pena». Este é dos meus sítios preferidos no mundo.