0

Ser, nos braços da Mãe



Comecei a escrever este artigo no dia da mãe e acho que não há melhor forma de iniciar este desafio, do que a homenagear aquela, que a meu ver, é a relação humana mais especial, intrincada e maravilhosa de todas.

Em qualquer animal a relação entre a mãe e a sua cria é de extrema importância, mas no ser humano, o que se desencadeia a partir dessa ligação primordial é de uma enorme complexidade e serve de rampa de lançamento para todo o desenvolvimento físico, emocional e social do novo ser em crescimento. Um filho desejado começa por surgir numa espécie de útero psíquico, que pode ser da mãe e do pai e que normalmente, é repleto de fantasias, emoções e expetativas.

Este sonho, vai desenhando aos poucos um bebé, que quando se torna real, vai ganhando forma no ventre da mãe. A relação emocional, já regada no desejo, cresce e floresce numa dependência fisiológica carregada de afetos. O bebé vive na mãe. O bebé é parte da mãe. E a mãe é tudo para o bebé. Quando chega o dia do primeiro encontro cara a cara, força, lágrimas, sorrisos e ânsias, em horas curtas ou longas, dão lugar ao primeiro confronto entre o bebé imaginado e um bebé real, que inspira a vida num choro, ainda ligado à mãe por dois cordões – o umbilical e o emocional, este último, de corte mais lento e trabalhoso. Mãe e bebé reconhecem-se, cheiram-se, ouvem-se, veem-se e tocam-se e iniciam assim, uma espécie de valsa sincronizada, que não precisando de perfeição, ajusta passos e dá lugar ao crescimento físico e mental.

A mãe, é aqui a primeira matriz organizadora do bebé, que não se reconhece ainda como um Eu e que apenas sente com todo o seu corpo. Sente sem sentido, prazer e desprazer e necessita urgentemente de uma tradutora, que atribua aos poucos significado a tudo o que o desperta para a vida.

Esta visita guiada pelos primeiros tempos de vida, exige à mãe um condão suficientemente bom, de ajuste às necessidades do seu bebé, com grande respeito em simultâneo, pelas suas capacidades e pelos seus ritmos de crescimento. Entre o estímulo e o repouso, vale conter, mas não vale invadir e a mãe suficientemente boa (D. Winnicott), sabe equilibrar e acertar o passo, ao compasso do seu bebé.

A significação, que tem inicio no que o corpo sente, vai impulsionando assim a organização mental, permitindo o acesso a ferramentas vitais para o bem-estar emocional e à emergência dos mecanismos básicos do pensamento, que mais tarde se vão complexificando. Aos poucos o bebé vai passar de uma dependência absoluta para uma dependência relativa e nesse período de transição vai experimentar estados de integração e não integração, vislumbrando um Eu ainda capaz de perder forma, mas que quando se torna consciente dá também lugar a um outro.

A mãe, em todo o seu empenho, povoou a mente do bebé de memórias securizantes, que o fazem confiar no que o rodeia. O bebé, outrora perdido no desconhecido, pode assim aventurar-se. Despontando um processo tão importante, do contacto físico e emocional entre uma mãe e o seu bebé, percebe-se que quanto mais prazeroso esse contacto for, mais feliz e sereno o bebé crescerá, pois na verdade, só depois de se viverem bons e seguros momentos nos braços da mãe, se sente real segurança para abraçar novos mundos.