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Objectos dos nossos filhos (tralha ou recordação?)



Quando cheira a flores, os dias se tornam mais longos, e o sol mais quente, apetece simplificar, apetece trazer parte dessa luz maravilhosa para dentro de casa, na forma de espaço e organização. Há quem chame, a essa vontade de renovação que cresce em nós, e que nos é inerente como seres da natureza, espírito da Primavera.

Nesse espírito, eu, encho-me de vontade de destralhar, e uma a uma, cada divisão da casa sofre uma reorganização, onde avalio o que faz sentido manter, e o que é para seguir viagem (seja a doação ou o caixote do lixo). No fim deste processo sinto-me sempre mais leve, mesmo quando o resultado final não é tão bom como o esperado.

Mas há, uma divisão que me frustra a cada ano que passa, porque em vez de esvaziar, enche, trata-se do quarto do meu filho de 8 anos. Nunca é fácil, por dois motivos, ele é muito agarrado aos brinquedos e a tudo o que lhe pertence, e eu a algumas das coisinhas minúsculas dele, de quando era bebé. O desapego não é o nosso forte... Ainda assim prometi a mim mesma, que este ano é que é. Planeio envolve-lo na selecção de forma positiva, e criar uma recompensa de acordo com o resultado final, por exemplo, por cada item que já não usa e ponha de lado, ganha 1 ponto, que poderá mais tarde transformar em algo que queira ter ou fazer (dependendo do total de pontos acumulado).

Ele fica responsável por me ajudar na selecção de livros, brinquedos e triagem dos trabalhos manuais de anos anteriores. Porque, sim, temos pastas cheias de ”arte infantil”, que se tem acumulado ao longo dos anos. O objectivo é (finalmente) escolher alguns para guardar, fotografar outros, e o resto, mesmos que custe um bocadinho (custa sempre), irá para o lixo.

E eu, tenho de me mentalizar, que é desta vez que liberto as gavetas das recordações de quando ele era bebé. Quero guardar só as coisas com maior valor sentimental. Afinal, não faz sentido ter ainda os 5 babygrows que levei para a maternidade, a primeira mantinha, todas as fraldas de pano, as primeiras botinhas, e as segundas, e… Sim a lista é demasiado grande.

Por fim, e isto é o mais difícil para alguém que só conseguiu engravidar com inseminação artificial, e que tinha ainda esperança que o milagre se desse mais uma vez, aceitar que não terei mais filhos. Depois desta aceitação, olhar para todo o hardware acumulado na garagem, ao longo destes 8 anos de filho a crescer (cadeirinha auto, berço, espreguiçadeira, parque, alcofa, ovo, carrinho de bebé...) e dar-lhe um novo rumo.