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Eu até tinha razão


Eu até tinha razão quando, conscientemente, fui adiando a inscrição das miúdas cá de casa nas inúmeras ofertas de atividades extra-escola que existem por aí.
Nunca o fiz, até ao presente ano letivo. Este é o primeiro ano que as minhas duas filhas mais velhas andam nalguma atividade fora do horário da escola. Este ano, pediram muito, e estavam mesmo certas do que queriam, e então lá fiz as inscrições.
E nunca o fiz porquê? Porque sempre senti que tudo isso traria para dentro da nossa casa, para o seio da minha família, mais um corre corre do qual desde sempre tenho andado a fugir. Acrescenta-se mais um horário que se tem de cumprir. A isso junta-se mais o equipamento que deve estar sempre organizado. Temos de continuar a correr.
Depois de um dia de trabalho, temos de manter (ou até mesmo acelerar) o ritmo com que já iniciámos o dia. Depois de sobrevivermos a isto, chegamos a casa. Muitas vezes já tão tarde quando ainda se tem tudo para fazer. Jantar. Banhos. Trabalhos de casa. Falta falar das birras, dos choros e às vezes dos gritos que são reflexo da correria do dia, do cansaço das obrigações, das exigências para que tudo seja cumprido.
Às vezes há atividades aos sábados. Roubam-nos as manhãs lentas. O tempo na cama dos pais. As panquecas de fim-de-semana e o pijama que não se tira à pressa. E continuamos no corre corre. A queixarmo-nos do tempo que não estica. Do tempo que não chega. De tudo o que há para fazer. E é por tudo isto que nunca me arrependi de não ter, conscientemente, entrado neste corre corre mais cedo. E é por tudo isto que eu digo: Eu até tinha razão.
Os nossos finais de dia lentos (que por si só, nunca são) são para mim insubstituíveis. Podermos chegar com tempo, pousar mochilas, tomar banho se sim ou até decidir que não, pôr logo o pijama, ficar a deambular por casa, só nós e na nossa rotina, sem nada nem ninguém para a alterar é, para mim, insubstituível. Porque é sempre ao final do dia que toda a gente está mais cansada. As birras do cansaço espreitam. A bebé só quer estar ao colo. As irmãs querem contar as novidades e brincar. A mãe tem de fazer o jantar e, a maior parte das vezes, pôr ordem na casa que ficou de pernas para o ar da manhã desse mesmo dia. Este tempo é só nosso. E é tão, mas tão preciso. É neste tempo que se estreitam relações, que se observam comportamentos, que se tiram conclusões, que podemos ficar mais ou menos esgotados.
Tenho um dia por semana de corre corre depois das escolas. Escolhi só ter um dia para isso. E apesar de ser só um dia, à noite, no final desse mesmo dia, quando estou a arrumar mochilas, a arrumar sapatilhas de ballet e afins, penso sempre: Eu até tinha razão. E mantenho a minha opinião. E mantenho a minha decisão.

#porpaissempressa
Artigo originalmente publicado em www.voltaraestacazero.wordpress.com