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Diferenças de género



É dado adquirido que as mães têm uma tendência de comparar os filhos. E se entre irmãos acontece, imaginem entre irmãos gémeos! Ter dois filhos de sexos diferentes exactamente da mesma idade permite avaliar as diferenças de género de forma mais efectiva. Desde cedo se notaram grandes diferenças entre ele e ela, diferenças essas que se têm vindo a acentuar com o crescimento. Mas será que isto é inato ou é condicionado por nós adultos, pelas formas que quase inconscientemente usaram para os influenciar a seguir os estereótipos da sociedade? Cá em casa somos tudo menos preconceituosos e não ligamos nada a estereótipos como os das cores de menino ou de menina ou outros que tanto se generalizam. Mas parece que se pararmos para pensar conseguimos encontrar uma ou outra coisa em que até nós nos deixámos envolver nesta teia de diferenças de género que se encontra enraizada na sociedade.

Não foi só uma ou duas vezes que o Daniel me pediu para pintar as unhas, para pôr maquilhagem ou para fazer totós como a mana. Normalmente e quase que em modo automático, respondo que são coisas de menina e acabo com a conversa. Mas estarei a agir da melhor forma? Depois de pensar sobre isto, decidi que o Daniel pintará as unhas se assim lhe apetecer fazer, poderá encher a cara de maquilhagem, usar ganchos e bandoletes ou vestir os vestidos da irmã. Afinal, de que forma mais natural se pode brincar do que a brincar ao faz de conta?

Um dia destes, estava sentada nos degraus da escada de casa a calçar-me quando aparece o Daniel e se senta ao meu lado. Olha para mim [estava de vestido] e diz:

"D: Mãe, puqué que tens as pénas à mota?"

Sorri, olhei para ele, e iniciou-se o seguinte diálogo:

"Eu: Filho porque tenho um vestido.

D: Mas tá muito mamã...

Eu: Não está amor! É porque como estou sentada e a saia sobe. Quando eu me levantar já vais ver que não.

Ainda pouco convencido diz me:

D: Então levanta lá pa eu vê"

Para a Carolina, o facto de eu estar de vestido apenas a deixou feliz. Disse qualquer coisa sobre como eu ficava mais bonita de vestido [é doida por vestidos e se pudesse era só o que vestia!], mexeu na saia, espreitou de todos os ângulos e seguiu. Avaliou apenas a parte estética, se gostava ou não do vestido em si e se me ficava bem.

Já o Daniel não ligou nenhuma ao vestido nem fez qualquer observação de qualidade sobre se me ficava bem ou não. A sua única preocupação foi que eu mostrava demais a perna! [Tenho em casa um pequeno machista!] Estarão os rapazes pré programados para reparar neste tipo de detalhes? Seria esta observação dele um sintoma de protecção para que a sua mãe não ande a mostrar as pernas na rua ou seria mais virado para o lado masculino inato cujo olhar tendencialmente pende para reparar em pernas e decotes? Um exemplo de diferença de género ou do condicionalismo involuntário a que as crianças estão sujeitas?

Artigo originalmente publicado em www.definitivamentesaodois.pt e adaptado para o mães.pt