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Dias especiais



O Natal, os aniversários, os dias dos namorados, pais e mães… não sei o que para o João Maria faz sentido, na sua maneira muito própria de entender o mundo.

Ele tem datas festivas do seu próprio mundo: o aniversário dos filhos ou do cavalo Snow, todos fruto da sua imaginação ou do cão- peluche Pimpão , para os quais fazemos bolos – às vezes feitos de farinha de trigo, outras de imaginação. Ele gosta de celebrar. De preparar os pormenores, de ser o mestre da cerimónia e ter os afetos à volta da mesa.

Mas hoje não era nenhuma data festiva, nem no mundo dos crescidos, nem no dele. Hoje, até foi um dia que “passou depressa demais sem nada de especial” – palavras dele, ditas no momento em que os nossos corações finalmente se encontraram, depois de uns bons minutos desavindos: agendas divergentes, prioridades trocadas; no que eu via o necessário princípio do banho e do descanso, ele percebia o trágico fim da bicicleta e da brincadeira.

”Não vou não vou não vou”.

Não tem sido escassos, por cá, nestas últimos dias, estes momentos de, como di-rei…”crescimento mútuo” (embora, em muitos deles, quer ele quer eu revelemos muito pouca maturidade).

Mas, hoje, armei-me de ternura, firmeza e paciência antes de entrar na arena que se montava. Abeirei-me dele, desci à sua altura (e não à sua idade). Eu não sabia como ia acabar a negociação mas sabia - porque tinha decidido -que não ia gritar, que não ia haver castigos ou prémios ou ameaças. E eles sentem a nossa verdade e a nossa força – essa  que vem da serenidade, do auto controlo, a que interessa ensinar.

Falei e ouvi. Esperei. Respeitei a falta de cooperação.  Voltei a falar das minhas necessi-dades mostrando compreensão pelas dele. Mas o miúdo é duro e o meu cansaço frágil. E quando os meus argumentos perdiam em vitalidade o que o pé dele a bater no chão ga-nhava, lembrei-me do que gosto que me façam quando me sinto esgotada, triste, mal:

“Há alguma coisa que eu possa fazer? Posso ajudar-te de alguma maneira e tornar isto melhor para ti?” E ele acenou que sim, num silêncio de rendição. O pé sossegou, as lágrimas secaram. Fim de jogo, 1-0 para mim.

Se podíamos ter um jantar como o do ano novo. E, à medida que saíam peças de roupa, entravam pedidos: Podemos por a mesa na sala? Com as velinhas acesas?  E fazer aquelas coisinhas com o nome? Posso escolher a toalha?

Tão pouco para tocarmos no botão do afeto. Tão pouco para chegarmos uns aos outros. Tão mágico. Eu estava cansada, é certo - a Helena a pedir embalo e as minhas costas a pedir descanso - mas deixei-me contagiar pelo seu entusiasmo. Ele, em sintonia com o seu desígnio, ajudou em tudo, quis fazer sozinho.

Enfim, sentamo-nos, acendemos as velas. A bebé adormeceu e eu suspirei: Que bonita a mesa! Ele comeu a sopa toda. Agradeci-lhe a ideia, que, afinal, me fez saborear com outro gosto a hora de jantar, de um dia tão normal. Os momentos especiais são quando nós quisermos. Fim de dia. 1 igual.