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regressos …



Quando eu era muito pequenina não havia “ovinhos” - o berço ia no banco de trás, depois íamos no colo até que um anúncio mostrou a todos que ,com pais conscientes, “os miúdos iam sempre atrás”. Depois lá veio o cinto e depois as cadeirinhas que ganham prémios de segurança.

Quando eu era pequenina íamos no banco de trás, muitas vezes sem cinto, a cantar ou a tagarelar durante as horas infindáveis que demoravam as viagens de férias. Um dia para ir de Viana ao Algarve. Íamos a discutir ou a dormitar, às vezes. Sem ar condicionado, iPad ou DVD ( depois lá veio um walkman para ser usado à vez!).

Quando eu era pequenina, nas férias grandes não se continuava a ir à escola, como agora. E as férias eram mesmo grandes, grandes demais, para as férias dos nossos pais.

Passávamos muitas tardes de calor em casa, na dormência da televisão ou no fervilhar da imaginação e a brincar “lá em baixo”, na frescura do cimento feito pista de bicicletas ou arena de campeonato do elástico e na sombra humilde do parque infantil, terra batida e baloiços de ferro. Sem programa pré-definido, sem atelier ou oficinas de âmbito pedagógico.

Às vezes, íamos à biblioteca alimentar a alma com “Uma Aventura” que ainda não tivéssemos lido ou ao Jardim alimentar a gula com um corneto de chocolate.

E havia semanas e semanas de praia, sim. Dias inteiros na praia, em que se almoçava fruta e uma sanduíche na barraca, se esperava três horas ( e meia para o meu pai!) para ir ao banho e o melhor do nosso dia era conseguir superar o desafio de mergulhar (com a cabeça) na água gelada e transparente, do atlântico Norte. De resto, inventávamos muito recorrendo à panóplia de “brinquedos": algas, conchas, baldes e pás, dunas e rochas.

Os dias passavam simples, infinitos como as férias, com sabor a tempo, a preguiça, a brincadeira, a liberdade.

Ninguém estaria muito preocupado com a repercussão que o seu estilo parental teria na auto-estima dos filhos mas apesar de muitos apesares tínhamos uma liberdade que hoje não existe: pais mais autoritários, talvez, mas muito menos controlo. Menos segurança mas muita mais confiança. Menos consciência mas muito mais descontração.

Passou depressa demais. E às vezes muito do que fazemos é ser uma segunda edição dos nossos pais num mundo que já não é o da nossa infância. Passou depressa demais. E, às vezes, acho que muito do que fazemos é tentar que ninguém nos “descubra",  é tentar que os nossos filhos não percebam que, no fundo, no fundo, ainda somos aqueles miúdos , sentados no banco de trás.