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O Irmão mais velho…

Sempre ouvi dizer que o melhor presente que podemos dar a um filho é um irmão. Sem dúvida que é, mas até que ponto, é assim visto pelo irmão mais velho. Sou mãe de dois rapazes com diferença de quatro anos e meio, é uma diferença de idade considerável mas que para nós, fez muito sentido que assim fosse. O R. é o irmão mais velho cá de casa e posso dizer-vos que, segundo ele, nem sempre é assim tão divertido …

O R. aceitou lindamente a notícia da gravidez, e acompanhou os nove meses de gestação com grande entusiasmo. Conversou com o seu “futuro” mano dentro da barriga, cantou-lhe canções, sentia os seus pontapés. Foram uns meses muito tranquilos, sem quaisquer indícios de ciúmes e com um amor de irmão que, naturalmente, já crescia dentro dele. Sozinho, fazia planos, “quando o mano nascer vamos jogar à bola juntos, vou emprestar-lhe os meus brinquedos, vou dormir com ele, vou ensinar-lhe muitas coisas…”. Sempre que via bebés, imaginava como seria o seu irmão, e seria, segundo ele, “um bebé muito lindo e muito fofo”. Quando o V. nasceu, o R. estava em casa dos tios, porto seguro que ele escolheu ficar enquanto os pais iam ficar no hospital. Os tios, muito empolgados, mostraram-lhe uma fotografia que tínhamos enviado, a primeira do V. e nesse momento surge a primeira desilusão do mano mais velho: “O mano nasceu tão velho e cheio de rugas, não era nada assim que eu queria!” Claro que quando se viram pela primeira vez foi um momento mágico, só deles e depois de ter o seu irmãozinho ao colo, as conclusões já eram outras, afinal ao vivo “o mano era muito lindo”. O regresso à casa foi maravilhoso! O R. saiu connosco do hospital, viveu intensamente a primeira viagem de carro do V. e assim que abrimos a porta da nossa casa quis que fizéssemos um “tour” pela casa toda em que ele descrevia todos os cantos do nosso lar. É dos momentos mais mágicos e ternurentos que guardo na minha memória, a voz doce que ele tinha para com o seu irmão bebé.
Os dias foram passando e com eles surge a segunda desilusão: “O mano só come e dorme?! Que seca!” Apesar de tudo não o largava, contava-lhe as novidades da escola e reparava com muita atenção nas conquistas do mano, os primeiros sorrisos, os seus primeiros movimentos espontâneos com os braços e pés, os primeiros balbuciares, os primeiros olhares, as primeiras palavras. O tempo foi passando e juntos foram crescendo, o V. ainda não era capaz de brincar com as coisas do R. mas o R. era capaz de brincar com as coisas do V. e assim passavam os dias os dois cúmplices a partilhar pequenas brincadeiras de irmãos, em que o mano mais velho mostrava ao mano mais novo todo um conjunto de estímulos mágicos que só os manos conseguem fazer. É escusado dizer que o V. tem desde sempre uma adoração pelo seu irmão mais velho. As noites cá em casa são mal dormidas há 6 anos, e o baby V. não trouxe nada de novo, aos 10 meses começou a dormir na nossa cama e de lá ninguém o tira. Eis que surge mais uma situação difícil de gerir para o irmão mais velho que tanto gosta da cama dos pais, “estão os três no quarto e eu aqui sozinho e abandonado, não é justo!”, diz ele com um sorriso e olhar gato das botas, estão a imaginar?!
O R. adora ver televisão quando acorda de manhã, até o irmão começar a andar, não havia qualquer problema, no entanto agora, ver televisão tornou-se um desafio, porque o mais pequeno desliga ou muda constantemente os canais. Como devem imaginar, o resultado disto são pequenas discussões matinais. Mais uma situação nada confortável para o irmão mais velho cá de casa. O R. ama o seu irmão, e apesar de refilar, a primeira coisa que quer fazer quando sai da escola é ir buscar o V., porque, segundo ele, não aguenta as saudades, quer tomar banho com ele, quer brincar com o irmão. No entanto, o R. também tem muitas saudades de quando eramos só três e este fim-de-semana (momento em que escrevo este texto) deixamos o V. nos avós e dedicamos toda a nossa atenção ao nosso filho número um. Acordou muito feliz, porque teve o seu lugar de volta na cama dos pais, viu televisão sem ninguém mudar os canais ou desligar a Tv, andou de mãos dadas connosco sem ter que dividir esse momento, brincou só connosco. Assim, tomamos consciência que realmente ser o irmão mais velho nem sempre é tarefa fácil, aliás é algo bem exigente! Para nós pais que andamos sempre a correr nem sempre é fácil fazer estas leituras, mas aprendi muito com este fim-de-semana e iremos repetir mais vezes, os avós agradecem e o mano mais velho também. O reencontro é maravilhoso, as saudades são mais que muitas e ficamos emocionalmente todos renovados e prontos para mais aventuras que só os irmãos podem ter.