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O dia em que tive vontade de atirar o meu filho pela janela

Antes de ter filhos, acreditava naquela visão romântica e bucólica de família em que tudo corre sempre bem e tudo é sempre perfeito. Ou pelo menos, acreditava nesta visão na maior parte do tempo. Sendo a mais velha de 4 irmãos, tenho bem presentes as recordações dos dias de birra, das implicações pelo lugar à mesa, das brigas por brinquedos ou para escolher o canal de televisão. Embora vistos de uma perspectiva diferente, estes episódios existiam na minha memória para apimentar a visão bucólica e perfeita.
Não sou de me queixar, mas há alturas em que me apetece fazer como a avestruz, enterrar a cabeça na areia e esperar que ninguém repare que o meu corpo está ali! Hoje falo de uma manhã assim. Já todos nós estamos cansados de saber que deitar tarde, no que toca a crianças, se traduz em manhãs mais difíceis. Se nos custa a nós adultos, mais custará às crianças, certo? Só que, por vezes, há situações que não controlamos e que nos forçam a ter que lidar com as poucas horas de sono e o desatino que daí advém.
Há tempos houve um dia em que era mesmo necessário deitá-los cedo. No dia seguinte tinham um passeio com o colégio e tinham que chegar até às 8h15. A essa hora, na maioria dos dias, estão a acordar. Por isso sabiam de antemão que para bem do humor de todos na manhã seguinte, tinham que se despachar e deitar cedo, e andámos todos em grande aceleração para o conseguir. Eram 21h30 e estava tudo deitado! Uns 20 minutos depois de se terem deitado apareceram. As desculpas eram várias, desde não conseguir dormir, até ter a cama desentalada... argumentos não faltavam. E depois foi preciso gerir a crise na manhã seguinte! O Daniel, que raramente acorda bem disposto, teve um acordar complicado em que tudo custou, tudo foi difícil, tudo foi uma enorme contrariedade. Acordar, sair da cama, fazer xixi, escolher o que comer ao pequeno almoço, comer, sair da mesa, subir a escada para se vestir, calçar-se, ou mesmo sair de casa, descer a escada, sentar-se no carro. Foram birras atrás de birras. Ainda estava a limpar lágrimas ou a assoar o nariz da primeira birra, já estava a começar a segunda, e assim sucessivamente. Tentámos todas as estratégias possíveis e imaginárias. As birras sucederam-se, fizemos turnos, quando eu estava mais irritada trocávamos e assumia o pai o comando, e quando se irritava ele lá ia eu. Nada funcionou! Confesso que a minha vontade foi de o proibir de ir ao passeio e mandar só a irmã. Há comportamentos que seja pelo motivo que for não desculpo nem aceito, e as birras de sono são de sono, mas quando se transformam em teimosia passam a outro patamar. [E as birras do Daniel são na sua maioria de um timbre e volume que leva qualquer um à loucura!].
Depois de sairmos, e a caminho do colégio já com 15 minutos de atraso, apanhámos uma fila enorme, tive que sair com eles e correr a pé para o colégio, onde chegámos uns 2 minutos antes do comboio de crianças sair para o autocarro. O Daniel ainda em lágrimas, a soluçar, vermelho, e nós... bom... nós numa pilha de nervos como poucas.
Deixámos os dois entregues à educadora e saímos. A tremer. Com o coração a bater descompassado. Com a sensação de sermos os piores pais do mundo porque afinal não nos conseguimos manter calmos no meio de todo o caos que se instalou em nossa casa naquela manhã. A mim, faltou-me pouco para irromper em lágrimas. Esta foi uma manhã em que tudo foi o oposto da imagem bucólica da família perfeita. Gritámos, chorámos, perdemos a calma, corremos, saímos de casa ranhosos, despenteados, desalinhados. Por dentro e por fora. Esta foi uma manhã normal, numa família normal, em que estas coisas acontecem. Se alguém vos disse que ter uma família era coisa fácil... enganou-vos!

Artigo originalmente publicado em www.definitivamentesaodois.pt e adaptado para o www.mães.pt