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Não julguem, o que não sabem

Quando assistimos a uma criança a fazer birra, verificamos nos adultos que assistem à situação, um olhar de quem procura dentro do aparato da situação em si, a culpa.
É tão comum ouvirmos comentários como "a culpa é dos pais" ou "que menino mal educado" (quem dá a educação? Os pais, ora então... de quem é a culpa? dos pais).
Vivemos numa sociedade que procura a culpa para tudo aquilo que não é "perfeito", porque vivemos numa sociedade, repleta de sujeitos com um umbigo enorme, muitas vezes incapazes de olhar para o outro com empatia, uma sociedade, que olha para o mundo real, imaginando as imagens perfeitas das revistas e da internet, ignorando que a vida é muito mais que uma imagem perfeita e que por detrás de uma “imperfeição” existe uma história, um acontecimento.
À pouco tempo fiz uma viagem e no avião encontrava-se perto de mim uma mãe com uma bebé com cerca de 2 anos. Uma bebé que se manteve a viagem tranquila até ao momento em que o avião começou a descer. Foi quando começou a chorar, chorou até o avião parar. Um choro que deu para perceber que foi sentido por muitos como algo incómodo. Para mim algo normal para uma bebé ou algo anormal, mas que eu não sei a sua história.
Esta situação deixou-me a pensar. Porquê? Porque eu não sei da história daquela criança, tal como os restantes passageiros não saberiam, provavelmente ela teria uma justificação para tanto choro, não sei se teria alguma doença ou dores, não sei se é normal reagir assim quando tem sono, ou medo, ou insegurança, ou simplesmente porque é criança que está a crescer e a se desenvolver como um sujeito independente dos seus progenitores e para tal impõem-se. Como? Naturalmente, fazendo birra.
A criança não consegue comunicar como um adulto e muitas vezes usa o corpo para o fazer, o que para nós, adultos contidos pela sociedade, nos incomoda.
Eu fiquei incomodada, não com o choro da criança, mas com os olhares de alguns passageiros.
Por favor, não julguem o que não sabem.