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Estimular a comunicação na adolescência

Neste caminho para a adolescência que vem sendo anunciado há uns anos, e o seu natural e consequente afastamento, tenho pensado muito na comunicação com a minha filha. Nós falamos imenso, sobre (quase) tudo, e ela, com 13 anos, ainda me conta muitas coisas. Sei que estamos em idade de viragem, e por isso esforço-me para não me pronunciar muito sobre as coisas que ela conta, embora lhe vá dando a minha opinião aqui e ali.

Também sempre conversei bastante com a minha mãe, embora tenha havido fases mais difíceis e de maior afastamento. E lembro-me de como os conselhos dela me pareciam sempre desapropriados, e de achar que ela não estava a perceber nada do que eu estava a dizer.

Neste esforço e trabalho sobre a comunicação, tenho procurado novas rotinas e formas de partilha, na esperança de as manter pelos anos que aí vêm. Fácil dizer, mais difícil de fazer.

Tendo em conta o seu gosto e obsessão pela música, temos um ritual de partilhar todos os dias uma música, escolhendo à vez um vídeo. Ela vai ouvindo aquilo que gostamos e nós o que ela gosta. Também temos evitado e adiado o mais possível que ela ande de headphones, deixando-a escolher a música que ouvimos, no carro e em casa. A irmã queixa-se, não só da sua escolha musical, como da necessidade permanente de ouvir musica. Mas vamos gerindo essas diferenças.

Por isso, toleramos algumas musicas foleiras (mais do que gostaria), mas vamos também partilhando coisas que todos gostamos, e vamos-lhe mostrando outras coisas. A verdade é que, com a nossa insistência, ela acaba por ir diversificando aquilo que ouve (e nós felizmente também) e já descobrimos algumas coisas que gostamos por ela (nem tudo é mau). E tem sido uma forma de a manter ao pé de nós a partilhar o que gosta de ouvir e a explorar novos sons em conjunto. Também gosto muito de ir ver concertos com ela, e é algo que fazemos com alguma frequência. E ela, embora por vezes expresse o desejo de ir com as amigas, quando chega o dia diz sempre o quanto gosta de ir a concertos comigo.

Aqui há uns tempos comprei um livro, um diário, feito por uma mãe e filha, que contam como começaram a escrever uma à outra e de como o fazem há muitos anos, e de como isso se tornou numa forma de partilha. Comprei para que possamos partilhar coisas uma com a outra, sem ser necessário conversar, sem a necessidade do confronto e de olhar nos olhos, no espaço e no tempo de cada uma de nós. Este livro tem a vantagem de ter ideias de temas e histórias para partilhar e escrever uma à outra, e ao mesmo tempo espaço para escrever livremente. Quando estivemos a ver, a minha filha disse: "Isto é bom, porque às vezes apetece-me contar-te coisas e não sei como, e assim posso escrever".

São muitas as formas com que vou trabalhando a nossa comunicação. Umas resultam mais que outras, e acho que este sucesso depende um pouco das personalidades. Aquilo que é importante para mim é que ela sinta sempre que eu continuo a tentar, sobretudo nas alturas em que ela se afasta. Como se agora, na entrada na adolescência, fosse ainda mais importante mostrar o quanto a amo e quero estar com ela.