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As três noites que choramos os dois

Tu choravas e eu chorava contigo do lado de fora da porta do teu quarto. Foram três noites muito duras. Estabeleci para mim mesma que tentaria durante cinco dias no máximo. Se não resultasse não iria estar a forçar. Mas nove meses de privação de sono, um quase acidente de carro devido a sonolência e o facto de ter começado a perceber o mal que te fazia não descansares devidamente devido à dependência em adormeceres, fizeram-me ceder a uma estratégia que tinha posto de parte desde o início. Deixar-te chorar. Depois de quatro livros, dezenas de artigos na internet, de conversas com outros pais, conselhos de pediatras diferentes, consultas numa terapeuta de sono, consultas numa osteopata, mama, biberão dos sonhos, desmame, banho antes, banho depois, pouco estímulo, sestas grandes e sestas pequenas, nada estava a resultar. Foram semanas e semanas de tentativas falhadas, de ansiedade face à hora de deitar, de piscinas entre o teu quarto e o meu. Quando tudo falhou, sentei-me e disse a mim mesma que tinha de dar oportunidade ao método que me revolvia as entranhas. Foram três noites em que te deixei a chorar quando te deitava. Foram três noites em que quase não conseguia mexer-me ou respirar por achar que te estava a fazer mais mal que bem, que ias sentir-te abandonado por mim, que me estava a tornar uma péssima mãe. Mas foram três noites. Na segunda noite dormiste pela primeira vez nove horas seguidas, na terceira dez e à quarta já não choraste.  Nos dias seguintes de manhã abraçava-te muito, com imensa força e olhava-te bem nos olhos para tentar descobrir algum sinal em ti de que estavas magoado comigo. Nunca vi diferença nenhuma. Vi, aliás, uma grande diferença na tua qualidade de sono, que acordavas bem disposto, sem chorar, a querer brincar e a sorrir.  Não é assim todos os dias. Há noites em que ainda reclamas um bocado quando me vês sair do quarto, depois de te dar um beijinho na cabeça de boa noite, mas ouço-te durante meio minuto e depois adormeces. Outras, ouço-te a meio das noite, fazes uns grunhidos, mexes-te imenso, detestas estar tapado, mas não chegas a chorar e adormeces poucos minutos depois. Obriguei-te a crescer, eu sei, mas as noites cá em casa começaram a parecer novamente normais, sem ansiedade, sem frustração. São noites para descansar e recuperar energias. E quando estás doente também vou ver-te muito mais vezes, dou-te colo quando sinto que precisas de aconchego e acabo por “matar saudades” das noites em que praticamente dormia no cadeirão do teu quarto. Espero que essas três noites já se tenham apagado da tua memória, que um dia mais tarde percebas que foi a minha última opção, que antes tentei tudo o que havia para tentar, mas que não aguentava mais. Ainda tenho medo de teres ficado sentido comigo, mas tento compensar-te tudo durante o dia, com muitos abraços, muitos beijinhos e toda a paciência do mundo.