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Quanto tempo é tempo demais?



Há alguns meses escrevi um texto sobre a entrada do meu filho de 2 anos na creche. Durante o Verão informámo-nos sobre as várias creches na nossa área, visitámos algumas delas e em Setembro ele começou naquela que nos pareceu a mais adequada. As sessões de adaptação começaram um pouco antes, como forma de ele se habituar ao espaço e às educadoras e auxiliares. Este período foi fantástico, nunca tivemos lágrimas e apesar de uns tremeliques nos lábios, tudo correu muito bem.
Passadas umas semanas, tudo começou a mudar. Vieram algumas lágrimas, que lhe custaram tanto a ele como a mim, mas acreditei que faziam parte do processo de adaptação. A educadora referiu, inclusivamente, que para algumas crianças se torna mais difícil a separação quando percebem que a ida para a creche é rotina. Os meses foram avançando e as lágrimas pareciam não cessar. Acredito que, em parte, a adaptação tenha sido mais complicada porque as duas tardes por semana em que ele ia não eram suficientes para criar laços e sentir a creche como um lugar de segurança. Infelizmente, acrescentar mais sessões não era, para nós uma opção financeiramente viável.
Pelo Natal fomos a Portugal, onde ficámos quase um mês e, já imaginava eu, o regresso seria novamente um desafio. Mas o desafio foi bem maior do que esperávamos. O choro para ir era cada vez mais compulsivo e começava ainda em casa assim que lhe calçava os sapatos. O caminho até lá era feito em prantos, entre lágrimas e soluços e pedindo para ir para casa, agarrado a mim ou ao pai. E depois começava a histeria, gritos, a chamar por mim, sem me largar e a educadora a tentar levá-lo. Sinceramente, chegámos a um ponto em que no dia anterior às sessões já todos estávamos em stresse e ansiosos com o que sabíamos que aí vinha.
As conversas com a creche foram muitas mas as soluções poucas. A penúltima vez que o levámos, a educadora disse-me que a partir dessa altura teriam uma mesa pronta para quando ele chegasse para que se pudesse acalmar e que quando quisesse se juntaria às actividades. Uma vez ficou lá 15 minutos, na última ficou 30. Eu não sou especialista em educação mas este género de “banquinho do pensamento” parece-me mais uma técnica à super nanny do que uma tentativa de conforto e acolhimento.
E este foi, para nós, o último sinal de que esta creche não é o lugar para o nosso filho. Acredito que ele foi sempre tratado em conformidade com as regras que se esperam de uma boa creche e não tenho dúvidas quanto à sua qualidade na generalidade dos casos mas houve, claramente, uma incapacidade de resolver esta questão de uma forma mais tranquila. Mas o maior sinal, aquele que ignorámos durante quase 6 meses, foi a sua não adaptação àquele espaço. Ouvimos todas as outras pessoas, educadoras, familiares e amigos, mas não o ouvimos a ele quando nos dizia, com a limitação que a linguagem lhe impõem, que não gosta das educadoras, que não quer ir e que se sente triste. Nestas questões, mais do que as brilhantes qualificações do espaço e dos profissionais que nele trabalham, importa como nos sentimos nele e, neste caso, isto foi flagrante.
A decisão de procurar outra creche foi, por isso, tomada. Muitos dirão que ele eventualmente se adaptaria e que tudo é uma questão de tempo. E eu pergunto-me, quanto tempo é tempo suficiente? E quanto tempo é tempo demais?