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Mães Polvo





No outro dia, no decorrer de uma atividade na escola da minha filha mais velha, já nem sei bem a propósito do quê, uma mãe constatou que não era um polvo, deixando transparecer, por um lado, alguma pena por assim não ser e, por outro lado, desejo de que assim fosse.
Alguém anuiu e corroborou, afirmando algo do género: "Oh, isso é que era bom!"
E eu não pude deixar de soltar um: "Seria mesmo bom? É porque isso obrigar-nos-ia a fazer ainda mais coisas do que as que fazemos; quando, na minha opinião, devíamos era estar a programar o nosso tempo para parar mais!".
E isto deixou-me a pensar.
Ainda que, provavelmente, estas coisas sejam muitas vezes ditas sem pensar, que por acaso até acho que neste caso isso se aplica, a verdade é que, intuitivamente, estamos programados a pensar e a sentir que deveríamos fazer mais, e mais, e mais; sob a pena de acharmos e julgarmos que isso é que nos torna melhores pessoas, melhores trabalhadores, melhores cidadãos, melhores pais e melhores mães.
A este pensamento, junta-se a culpa. Porque se por acaso deixas alguma coisa por fazer, propositadamente, porque até achaste que agora querias ler o capítulo daquele livro, ou aquele artigo, ou ver aquele episódio da série de que gostas, ou deixar a roupa, o banho dos teus filhos ou o jantar para mais tarde, sentes culpa.
Sentes que não estás a ser uma melhor pessoa, um melhor trabalhador, um melhor cidadão ou uma melhor mãe.
E por isso achas que devias ser um polvo. Para fazer tudo o que já fazes e mais outras tantas coisas que os outros tentáculos todos te permitiriam fazer. Porque será isso que faz de ti uma super-mulher e uma super-mãe.
E dito isto, fiquei mesmo com a certeza de que quero parar mais, procurar uma vida mais lenta e fazer o que consigo, apenas com os dois braços que tenho!

Artigo originalmente publicado em www.voltaraestacazero.wordpress.com