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A difícil gestão da tecnologia



A tecnologia entrou nas nossas vidas de forma inegável. Esta semana um aluno veio ter comigo a confessar que estava viciado em jogos e que estava a ser tratado, razão pela qual não tinha aparecido durante o semestre. Fiquei a pensar naquilo, no aluno, no problema dele, e na forma como nós temos gerido a relação com a tecnologia cá em casa. A verdade é que nos primeiros anos isso foi fácil. A nossa filha mais velha não gostava muito de televisão, nem lhe atraia muito os jogos e outros brinquedos tecnológicos. Aliás, de tal forma que comecei a pensar que, sendo o futuro tão ligado à tecnologia, em todas as áreas, isso poderia ser um handicap para ela. Mas ela gostava mesmo era de pintar, desenhar, inventar, cantar, dançar. Teve o seu 1º telemóvel aos 10 anos, altura em que começou a ganhar autonomia, andar e deslocar-se sozinha na rua. Mas mesmo nessa altura, manteve o seu distanciamento. Com o início do 5º ano apareceram as primeiras interações sociais via telemóvel, sobretudo pelo Whats up. Segundo a nossa filha, todos os seus colegas tinham smartphones. Nessa altura instalamos 2 regras cá em casa, que se mantêm: 1) O telemóvel fica na sala, quando chega a casa e durante a noite, e 2) não há telemóveis para ninguém à mesa. Apercebemo-nos que as mensagens do Whats up chegavam a toda a hora, e até muito tarde, muito depois dela ir para a cama. Percebi pelas mensagens, que muitos colegas iam com o telemóvel para a cama. A verdade é que nem isso a fez ligar muito.
Agora, com 12 anos, o telemóvel começou a ganhar muito espaço. Começamos a notar que ela estava a deixar de fazer as suas invenções (ou disparates, dependendo do resultado). Ficamos com a sensação de que aquela intensificação lhe estava a roubar a criatividade. Na verdade, o que ela mais faz é ver vídeos, sobretudo no Instagram, e falar com os amigos. Também vê roupa, dicas de maquilhagem, ideias para outfits, vídeos de Ukele e de música, esses melhores, e vídeos humorísticos. Como ela (ainda) partilha muito do que vê, podemos ir testemunhando a porcaria que por lá anda. Começamos a limitar o uso do telemóvel, e a partilhar com ela a nossa opinião, que é recebida com uma enorme resistência. Aqui há umas semanas, o telemóvel dela avariou, e ela teve que usar um dos “antigos”, daqueles que não são smart. Este acidente trouxe-nos uma oportunidade para ver e pensar nisto. O Pappi diz que, havendo adultos que não conseguem controlar a sua utilização do telemóvel, não podemos esperar que as crianças consigam, e que por isso temos que ser nós a fazer esse trabalho, em conjunto com eles. Aquilo que observamos é que a sua utilização do telemóvel, quando excessiva, lhe rouba a criatividade, aumenta o mau humor, promove o isolamento e promove a interação permanente com os pares, nem sempre saudável. A verdade é que a tecnologia tem muitas coisas boas, mas há que saber geri-la. Isso não é fácil, até porque essa gestão começa para nós próprios. Como em muitas outras coisas, podemos começar por falar sobre assunto e refletir em formas de gerir esta interação, e no que ela significa.