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O vazio do filho que não nasceu



Foi num qualquer dia, de um qualquer mês que descobri que estava grávida. Uma gravidez inicialmente assustadora. Uma quarta gravidez de risco, com mais idade e num momento que para nós, a famí­lia já estava concluí­da.
Demorou algum tempo para nós assimilarmos esta nova mudança nas nossas vidas. Eu comecei com todos os cuidados possíveis para minimizar o risco quer para o bebé quer para mim.
E quando tudo estava a correr bem, quando o mano(a) já tinha nome pensado e eu já tinha começado a coser o enxoval, tudo muda.
Numa qualquer noite antes de jantar, surge a necessidade de uma ida ao hospital. Nada preocupante, pensei eu. Pensamentos que surgiam acompanhados de um aperto no coração, um receio inexplicável.
E no hospital ouço aquilo que neguei estar a ouvir, aquilo que pedi para que repetissem porque não estava a conseguir assimilar. Gravidez não evolutiva... Parou de crescer... O chão desapareceu nos meus pés. Saí­ do hospital "anestesiada", não consegui chorar, não consegui pensar, só queria voltar para casa.
Quando cheguei a casa da urgência hospitalar, as minhas filhas já dormiram, fui espreitá-las e foi nesse momento que o vazio instala-se em mim. O vazio do filho que não ia existir, do filho que não ia cheirar a mãe, que não ia experimentar o colo das manas, nem o embalar do pai. De um filho(a) que existiu dentro de nós, que fez parte da nossa famí­lia.
Foram dias de lágrimas, dias de vazio, dias a tentar ultrapassar o que estava a acontecer.
Eu como tantas outras mulheres, passei por aquilo que nenhuma mulher/mãe deveria passar. Eu como tantas outras mulheres, senti o vazio do colo que nunca iria se encher. Eu como tantas outras mulheres necessitei de fazer o luto de um choro e de uma gargalhada que nunca iria ouvir. Eu como tantas outras mulheres, tive que ultrapassar a perda de um filho que não nasceu e penso nele(a) e em como ele(a) seria.

(Este foi um texto escrito quando me encontrava a tentar ultrapassar a dor fí­sica e recuperar a normalidade do meu corpo, mas a cima de tudo o meu coração).