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Duas famílias numa só



Sentada observo atentamente o meu Rei. Olho-o daquele modo embebecido e pateta que só eu sei. Tomo atenção nos traços do seu rosto, que dia após dia se tornam mais e mais definidos, um menino crescido, com aquele olhar doce.
Observo as suas mãos que cada vez com mais destreza rabiscam as folhas e teclam sem parar.
Observo-o e sinto-me tão pequenina, o coração encolhe-se mesmo que repleto de amor por aquele pequeno ser, que está tão grande. Tomei uma decisão na vida, na minha, na dele, na nossa e nem tive a coragem de lhe pedir permissão, de lhe perguntar se ele a queria. Tão pequenino e tão grande. De repente a vida dele mudou, por minha culpa, que tomei uma decisão. Ele aceitou-a sem me pedir explicações, sem me perguntar sequer o porquê de a tomar, ele é pequeno, mas é grande e o seu coração já alberga demasiados sentimentos, demasiadas desilusões. O meu papel era tão simples, era apenas de o proteger, e agora sinto que falhei. Ele sorri-me, dando me coragem e força, mostrando que não está zangado comigo, mas eu sei que o seu coração lhe vai dando batidas incorretas, de tristeza, de saudade. A minha família tornou-se mais pequena, a dele mantém se igual, embora a ausência e a distância permaneçam. Sinto-me impotente perante as minhas próprias decisões, sinto-me incapaz de fazer com que o seu sorriso se abra na totalidade e que o seu coração seja repleto de apenas alegrias.
Todos os dias tento fazê-lo acreditar que as minhas decisões são apenas minhas, não dele, e que no seu coração não atribua responsabilidades porque as responsabilidades não lhe pertencem. Tento que ele entenda que é uma criança e que assim tem de se manter. Ele olha-me e sorri, encorajando-me, tão pequeno e tão mais corajoso que eu.
Tomei uma decisão, com total certeza dela, no entanto, completamente alheia às suas consequências. Ponderei, e por uma vez pensei em mim, e isso dói-me, por me ter posto em primeiro lugar, ignorando a tristeza que ficaria no seu olhar.
Ele, meu Pequeno (enorme) Rei, no meio da sua grandeza sussurra-me ao ouvido, vezes e vezes sem conta "Agora já não choras mãe, estás feliz e eu também!", e essas palavras que me deveriam dar alento atormentam-me, não deveria projetar os seus sentimentos em mim, não deveria preocupar-se com o meu sorriso quando o dele é tão mais importante.
Quando lhe tento explicar, que o amor por ele é o mesmo, que a Mamã e o Papá apenas já não querem estar juntos, mas que o amam "desde aqui até à Lua e desde a Lua até aqui, ao coração" tantas e tantas vezes, ele sorri, encolhe os ombros e diz-me que está tudo bem. Dói saber que a realidade em que vivia nunca foi a que sonhei para ele, dói saber que engoliu as lágrimas fingindo que tudo estava bem.
Em jeito de menino crescido, no auge da sua simplicidade, inerente aos seus 7 anos, perguntou-me num ar angelical: "Mas mãe, o Pai passa o Natal cá em casa? É que o Natal é a época em que se reúne a família, não é Mãe?" E um coração assim pára, e as dúvidas o assolam por completo. Tomei uma decisão, e pela decisão que tomei, um coraçãozinho já não bate tão completo quanto antes. Tomei uma decisão e o meu coração irá assim, tantas vezes parar.

"Meu Rei, a minha família és tu! A tua, sou eu e o Papá. São duas famílias diferentes, mas devido a um grande amor (tu) tornam-se numa só, a tua!
Agora meu Rei, dá-me a tua mão, a Mamã tomou uma decisão, a mais importante e a mais difícil de todas. Agora, meu amor, farei o meu caminho do teu lado e apenas contigo, por isso meu Rei, dá-me a tua mão, temos um mundo inteiro para conquistar. Porque amor com amor se paga, e disso, tenho a montão!"


Tomei uma decisão, peguei na mão do meu Rei, ele sorriu-me e ambos olhamos em frente, o caminho ainda é longo, mas iremos fazê-lo juntos passo a passo.