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Como lidar com o Autoritarismo na Primeira Infância



Ainda nem ao ensino superior chegaram e já têm a mania que dão ordens lá em casa. Os filhos patrões gritam e têm momentos de autoridade em que querem mandar nos pais, nos avós, nos amigos ou simplesmente no cão ou no gato.

Já todos tivemos momentos destes com os nossos filhos, por imitação do comportamento adulto, por vontade de afirmar a identidade, para chamarem a atenção ou só porque naquele dia estão virados do avesso. Não há filhos perfeitos, nem pais perfeitos. Estamos sempre a falhar. E a educação não se faz num ato único, a educação é um trabalho difícil, desafiante e constante. Quantas vezes não nos vamos abaixo porque eles estão a desviar o comportamento e não sabemos o que fazer? Quantas vezes já pensámos “não me digas que o meu filho vai ser dos que se porta mal?’. Muitas vezes o autoritarismo chega logo na primeira infância, a partir dos 2 anos, e é preciso saber lidar para suavizar o comportamento futuro. Não existe uma fórmula mágica, existem sim estratégias, que a Psicologia Irina Vaz Mestre ajuda a explorar.

Como lidar com o autoritarismo na primeira-infância e como podemos “desviar” esse comportamento?

Este é, de facto, o primeiro mito que nos surge. Achamos que devemos “desviar” este comportamento e, ao acharmos isso, estamos a intensificá-lo ainda mais. A partir dos 2 anos de idade, a criança protesta muito e usa frequentemente a palavra “não”. Achamos que devemos fazer algo para que ela aceite o que lhe dizemos e para que proteste cada vez menos. Mas sermos pais conscientes (parentalidade consciente) significa, nada mais, nada menos, educar para crescer. Se, quando os nossos filhos chegam à idade da independência, queremos contrariar essa vontade, então não estamos a educá-los para crescerem. Estamos sim a ser autoritários e controladores, e este é, inevitavelmente, o modelo que lhes vamos passar. Sugiro então que, num primeiro momento, alteremos a nossa forma de comunicar, que passemos de uma comunicação autoritária e controladora para uma comunicação que reconhece a vontade do outro e que comunique confiança: “Sei que queres muito lavar os dentes sozinha/o. Que tal seres tu a lavar primeiro e, no fim, só dou uma ajuda” em vez de “Não podes lavar os dentes sozinha/o, porque és muito pequena/o. Vão ficar todos mal lavados. Eu lavo”. No entanto, não esperem que os vossos filhos aceitem tudo o que lhe dizem com um sorriso nos lábios. Eles vão continuar a querer fazer tudo sozinhos. Porém, desta forma, estão a ensiná-los a comunicar eficazmente as suas necessidades em vez de protestarem as suas necessidades de forma autoritária. Ao enveredarmos por este caminho da comunicação consciente estamos a fortalecer o bom relacionamento familiar. Na verdade, a comunicação é o caminho que nos leva à colaboração.

Enquanto pais, quais são os desvios na personalidade a que devemos estar atentos?

Enquanto pais, e aqui falo na perspetiva da Parentalidade Consciente, que é aquela que nos últimos tempos tenho aprofundado e adotado, o foco da nossa atenção está no entendimento do comportamento e na procura da resposta à pergunta “porquê”. Assim, a que devemos estar atentos é precisamente ao “porquê” daquele comportamento. Proponho que sempre que nos deparemos com “um desvio na personalidade” acionemos o detetive que há dentro de nós e tentemos perceber quais são as necessidades que estão por detrás daquele comportamento. É curioso que fazemos sempre isso quando os nossos filhos são bebés. Preocupamo-nos em descobrir a causa daquele comportamento e vamos ao encontro das necessidades do nosso bebé, tentando suprimi-las. Quando os nossos filhos crescem, deixamos de dirigir a nossa atenção às suas necessidades e focamo-nos apenas no seu comportamento. Queremos mudar o seu comportamento. Queremos que deixem de ser assim. Mas, e são assim porquê? Como refere a querida Mikaela Öven, minha mentora e guia neste caminho da Parentalidade Consciente: “Se conseguirmos agir em relação às necessidades, o comportamento também vai mudar. Quando a necessidade está satisfeita, o comportamento em questão deixa de fazer sentido”.

Enquanto mães, como podemos conduzir esta fase com Mindfulness?

O Mindfulness tem sido, para mim, uma ferramenta fundamental. O estado da nossa consciência faz a diferença. Se estivermos sempre stressados, ansiosos e preocupados, acabaremos por ter filhos e educar filhos neste registo de energia. O mindfulness permite-nos e ensina-nos a observar os nossos pensamentos como se de uma testemunha nos tratássemos. Permite-nos parar e orientar o nosso foco. Dirigir a nossa atenção. Enquanto mães, podemos superar os desafios que a maternidade nos oferece com uma atitude mindful. Parar, respirar e focarmos a nossa atenção em três perguntas, que nos ajudarão a encontrar respostas que, por sua vez, nos levarão a saber como agir:

1. O que está o meu filho a tentar comunicar e qual é a necessidade em falta?
2. Qual é a minha intenção?
3. Qual é a melhor forma de agir de acordo com a minha intenção?

Por intenção entenda-se a forma como queremos assumir o papel de pai ou de mãe. E estes são os intuitos que nos podem servir de guia quando temos dúvidas sobre como agir. Na verdade, refletirmos sobre as nossas intenções é o ponto de partida para uma Parentalidade Consciente e devemos sempre voltar a elas de cada vez que nos sentimos inseguros ou a vacilar num momento de angústia, impulsividade e conflito.

Colaboração: Irina Vaz Mestre, Psicóloga e Autora do Blog Voltar à Estaca Zero