0

Parto normal com epidural versus parto normal natural


O parto com epidural
Sou mãe de dois filhos rapazes, ambas as gravidezes foram tranquilas e nunca senti ansiedade relativamente ao momento do parto. Sempre tive muito bem definido que tipo de parto queria - parto normal sem dia e hora marcado, acredito que, sempre que possível, devemos permitir que os acontecimentos sejam despoletados de forma natural. A única certeza que eu tinha é que queria ser anestesiada com a famosa epidural, dores não obrigada, se há solução para esse problema porque não usar?!
O Rodrigo nasceu às 39 semanas e 5 dias de um parto normal e super tranquilo. Cheguei ao hospital com uma rutura da bolsa e de imediato foi-me dada a indicação de internamento. O trabalho de parto desenvolveu-se de forma natural, quando as dores se intensificaram foi-me administrada a epidural e assim que atingi a dilatação certa fui para a sala de partos. Nascia o nosso primeiro filho, resultado de toda uma experiência indolor e maravilhosa.
O parto sem epidural
Quatro anos após a primeira experiência, grávida pela segunda vez, ansiava pela repetição do primeiro parto!
Grávida de 40 semanas estava em casa quando, a uma sexta-feira, começo a sentir contrações, contudo sabia que ainda não era o momento de ir para as urgências. Na manhã seguinte, com a intensificação das contrações, ainda espaçadas é um facto, após falar com o meu obstetra sigo para as urgências para ser observada. Tranquilizam-me dizendo que está tudo bem e que o bebé já está totalmente encaixado, recomendam-me ir andar a pé e regressar mais tarde.
 “Bora lá fazer a caminhada da praxe que isto de hoje não passa!!” - pensava eu...
Alguns kms depois regresso às urgências e o médico, após conferenciar com o meu obstetra, decide internar-me.
Começo a ter um dejá-vú, senti-me a reviver a experiência pela qual havia passado há 4 anos.
Vou para o meu quarto, visto a bela bata branca, sinto-me imensamente feliz e tiro fotografias para mais tarde recordar. Quando chega o meu médico é-me feito mais um toque (ia no terceiro do dia, mas tudo bem), contudo recomenda-me regressar a casa! Segundo ele o bebé ainda ia demorar a nascer pelo que em casa ia estar mais descansada.
Apesar de mentalmente estar preparada para tudo acontecer naquela noite, se o Dr.J. diz o Dr.J. manda, eu confio totalmente neste senhor, por isso trouxas no carro e lá vamos nós para casa novamente. O meu filho mais velho estava com os primos e lá ficou, tivemos uma noite santa, dormimos até às 10h da manhã (coisa rara quando temos um filho que não nos deixa dormir)! Foi uma noite fantástica.
Domingo era dia da mãe, sentia-me bem, pedi ao meu marido para irmos almoçar fora com o Rodrigo e passarmos o dia em família uma vez que estava tudo tranquilo. Numa das idas à casa de banho antes de sair de casa saiu-me o rolhão mucoso, mas como me sentia bem decidimos ir então almoçar. A meio da refeição as coisas começam a complicar-se, as contrações voltam em força e peço por tudo para sairmos dali e regressarmos a casa. Assim fizemos, tentei aguentar umas horas mas de seguida fui para as urgências para ser vista novamente.
Começa a Twilight Zone...
Sou vista por uma pseudo-médica, que lê o relatório do meu internamento do dia anterior e me encaminha para o CTG. Apesar de estar com contrações quase insuportáveis e sentir que estava a chegar o momento, levo um sermão da senhora – que me acusa de ansiedade, que me diz que as crianças é que escolhem o momento para nascer, não são as mães. Apesar de a relembrar de que estava de 40 semanas e 1 dia, de que me tinham feito 3 toques no dia anterior e que sentia dores quase impossíveis de aguentar a senhora diz que não me vai internar. Manda-me para casa e pede-me para tomar Ben-u-ron.
Ainda liguei para o meu obstetra a explicar toda esta situação, contudo, ele com base na confiança no trabalho dos colegas tranquiliza-me e pede-me para ir para casa, mantendo-me atenta. Cometo o erro de acatar... deveria ter seguido a minha intuição de mãe e ter dito que não!
Chego a casa por volta das 17h30 e deito-me sem saber que se estava a iniciar uma das maiores aventuras da minha vida. De repente, as contrações intensificam-se de uma forma descontrolada e todo o processo de trabalho de parto acelera loucamente. Com dores contínuas e quase insuportáveis, dou por mim a seguir de forma inata o meu instinto ao colocar-me de cócoras quando sinto que tudo estava prestes a acontecer!
O meu marido liga para o nosso obstetra, que nos pede para nos deslocarmos para o hospital com máxima urgência. Ainda hoje não sei como é que ele não desmaiou, pegou em mim, deu-me dois gritos (porque basicamente estava descontrolada com tantas dores que tinha) e voou em marcha de urgência até ao hospital. Saímos de casa por volta das 18:00, moramos a 10/15m do hospital e felizmente era Domingo, pelo que praticamente não havia transito.
Sentia que estava a acontecer e não queria acreditar que depois de ter estado diversas vezes no hospital nas últimas horas o meu filho podia nascer no carro!
Entrámos diretamente no piso de obstetrícia comigo a gritar de dor, sou de imediato colocada numa maca (por uma médica que ia a passar) que me tira a roupa e que grita por ajuda de enfermeiras, rapidamente tenho 4/5 pessoas a correrem com a minha maca para o bloco de partos.
Apesar das dores conseguia ouvir os comentários à minha volta: “Tem a dilatação completa e o bebé já está a nascer! Não há tempo para epidural!!! (Nesse momento transformei-me e saíram vozes aos gritos de dentro de mim, descontrolei-me por completo).
Não houve tempo para batas de hospitais, não houve tempo de levar epidural, estava a acontecer e eu tinha que colaborar. Agarrei-me com “unhas e dentes” à mão de uma das enfermeiras e gritei, gritei o mais alto que consegui, gritei o que senti que tinha que gritar para me controlar!
Mas na realidade tudo acalmou mal ouvi o choro do meu filho pela primeira vez! Perante o choro do Vicente, esqueci todo o medo que senti, toda a agitação que vivi, senti paz, por mim e por ele!
Resta referir que o meu médico, que mora ao lado do hospital saiu de casa quando recebeu a chamada do meu marido, pelo que entrou na sala de partos praticamente ao mesmo tempo que eu, e também ele sem bata fez-me o parto! É sem dúvida o melhor obstetra do mundo!

Conclusões
O parto natural é sem dúvida algo que requer uma grande capacidade de tolerância à dor, quem opta por um parto sem anestesia tem de ter isso bem presente. Eu não tive, nunca tinha pensado nisso nem estava mentalmente preparada para tal. Na minha cabeça tudo ia ser exatamente igual à primeira vez!
Contudo, posso afirmar que do ponto de vista sensorial tirando a dor das contrações, é maravilhoso! O período de expulsão do bebé é sensacional, indescritível. Senti cada detalhe, e acreditem ou não esta parte é totalmente indolor.
A recuperação deste parto foi também incrivelmente mais rápida, passadas umas horas sentia-me lindamente e pronta para a ação.
Como aprendizagem retive ainda que da próxima vez vou seguir os meus instintos de mãe, apesar de tudo ter acabado bem, tive sorte, o meu filho poderia ter nascido em casa ou no carro sem qualquer tipo de assistência qualificada. Não deveria ter saído do hospital, deveria ter exigido que me internassem. Toda esta história faz ainda menos sentido quando o hospital em causa é particular! A vida é mesmo assim, nela tudo pode acontecer!

Sou eternamente grata ao meu marido que tomou as rédeas de tudo isto na hora certa, não restam dúvidas, escolhi o melhor pai para os meus filhos.