0

Não acontece só aos outros



Com a saúde não se brinca e eu sou daquelas pessoas que acha que “só acontece aos outros”.
Faço anualmente consultas de rotina com os devidos exames de diagnóstico que me permitem ter um ano ou uns meses mais “descansada”.
Há especialidades médicas que, por inerência de algumas maleitas que já foram aparecendo, consulto duas vezes por ano (como é o caso da Ginecologia, Ortopedia e Dermatologia).
Esta última, visito em Abril e Dezembro. Sem excepção.
Vou à Dermatologista antes e depois do Verão, porque sendo eu um "sinal pegado" do pescoço para baixo (e viciada em praia de Maio a Outubro) tenho plena consciência que os meus níveis de exposição solar são bastante elevados e, assumidamente, nem sempre com a devida protecção.
Posto isto, venho alertar-vos!!
Numa consulta de rotina, recebi um “Alerta Vermelho”.
Um sinal com sinais visíveis de alteração, um sinal muito feio, um sinal muito alterado, um sinal com características de um Melanoma.
A expressão facial da médica, a urgência na cirurgia, a calma e prudência com que me alertou do que podia ser e não ser, fez-me tremer as pernas naquele frente a frente paciente/médico.
Sou uma pessoa muito emocional numas coisas, mas absolutamente objectiva e pragmática noutras.
Perguntei de imediato:
- Dr.ª, e se for? Quais os passos a seguir? Quimioterapia? Radioterapia? Imunoterapia?
- Vamos com calma, Rita. Uma coisa de cada vez.
No caminho do Hospital para casa (caminho em que fui em piloto automático porque não me lembro de nada) só pensava nos meus filhos. Nos meus pais. No meu marido. Nos meus amigos. No meu trabalho.
Nesse dia chorei de pavor. Chorei com medo de morrer. Chorei com medo de não estar cá para os meus filhos. Com medo de não os ver crescer.
Nesse dia, quando vi os meus filhos à porta da escola, olhei-os de forma diferente. O beijo do Duarte soube-me a pouco e o abraço do João, senti-o como se fosse a primeira vez.
Os resultados demoraram 3 semanas. 3 longas semanas...
Tentei pensar o menos possível na possibilidade tão ténue, tão entre a espada e a parede, entre um “sim, tens cancro ou não, não tens cancro (por enquanto)”.
Naquelas semanas pensei essencialmente em todos os disparates que fiz ao longo da vida.
Nunca me culpei por ter apanhado sol em excesso. Nunca me culpei pelas horas a fio na praia. Nunca me culpei, porque caso isso acontecesse, morreria consumida pela culpa e eu não sabia se iria precisar da minha energia concentrado num outro campo muito mais importante.
O resultado chegou pela voz da minha médica acompanhado de uma imagem que dizia:
“É benigno!”
Não era um melanoma mas caminhava a passos largos para ser.
Se não tivesse o cuidado de vigiar de perto, seguramente seria um, muito em breve.
Depois do susto, nunca mais fui a mesma pessoa na praia. Lembro-me muitas vezes do que passei, do medo e do pavor que senti.
Gosto de sol, mar e praia, mas passei a ter cuidados que até então não tinha, porque quero - entre tantas outras coisas - levar os meus filhos à EuroDisney, quero levá-los a viajar pelo mundo, quero vê-los crescer, vê-los sorrir, quero conhecer o Rio de Janeiro (quero tanto!), quero voltar a São Tomé e Príncipe (e quem sabe um dia para ficar), voltar a pisar o Marco do Equador, quero escrever um livro, quero namorar mais, ler mais, escrever ainda mais, quero voltar a Praga, a Paris, fazer um cruzeiro com os meus pais, andar mais de braço dado, casar as minhas “irmãs, ver os meus filhos chegar à adolescência, passar por ela, escolher o que querem ser quando forem grandes; quero tanta, tanta coisa! Quero viver!! Viver!
Para isso, todo o cuidado é pouco.
O meu conselho a todos vós... Não se descuidem!
Um segundo basta para tudo mudar na nossa vida. Não se ponham a jeito!