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Mãe, levas-me pela viagem do amor (a maior parte das vezes)?


Do que mais gosto neste caminho da maternidade é que ele me devolve ao mais íntimo de mim, sobretudo nas curvas mais apertadas onde, às vezes, derrapo. Às vezes, por ir depressa demais ou por me distrair a olhar pelo "retrovisor" da vida, em vez de estar na paisagem atual, ou por falta de forças e destreza, tombo e esfolo a alma.
E aí há gritos-oxigenados que lavam a ferida, há um "vai já para o teu quarto"- rápido que estanca a raiva, há uma ladainha de lamurias que me saem do disco-rígido, como bálsamo para o ego exposto.

Depois, respiro. às vezes, respiro durante horas, dias. como se fizesse o penso à dor, renovo os pensamentos tóxicos por outros lavados, aplico tolerância em mim própria e um pedido de desculpas ao visado como cicatrizantes do Amor - esse que me leva de volta ao único caminho que quero fazer, apesar das curvas.
E aqui, por vezes, é que está a confusão.

Eu acredito numa relação com os filhos sem gritos, sem castigos, sem prémios ou recompensas - tal como em qualquer outra relação entre duas pessoas.
Acredito numa relação onde se pratica o respeito mútuo, onde não se julga, não se põe rótulos e onde há espaço para exprimir as emoções.
Acredito numa relação que vê para além do comportamento - percebendo que, por mais desafiante que seja, é o único que a criança consegue ter naquele momento.
Acredito numa relação que valoriza tanto as necessidades fisiológicas da criança como as suas necessidades psicológicas, onde não há hierarquia, há igual valor.
Acredito numa relação onde, em vez de regras, rotinas e imposição há limites pessoais, congruência e negociação.

E acredito que só há uma forma de educar - sendo, mostrando, fazendo.

E claro, acredito - porque o experimento várias vezes - que isto não se consegue fazer a toda a hora. Mas não é por isso que não é válido ou não se deve praticar, na maior parte de tempo. Porque quando não o conseguimos fazer não há nada de "errado" no caminho escolhido, nem no nosso filho, mas sim em nós.
Quando "derrapamos", só quer dizer que há necessidades nossas que não estão a ser satisfeitas e que naquele momento, foi o único comportamento que conseguimos ter, embora não seja o melhor.

E aí há que olhar para dentro e crescer mais um bocadinho - como mãe e como pessoa mais autónoma - com tolerância e responsabilidade por si própria.

E então lá vou, de novo - com um ego posto no seu lugar, trilhar o caminho da humildade, do olhar de aprendiz, à boleia do Amor - esse que nos leva pela única viagem que vale a pena.