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Gravidez e prioridades


Este é um assunto que sempre me causou algumas comichões, mais agora que estou grávida e sofro na pele aquilo de que sempre ouvi tanta gente queixar-se.
Acontece comigo todos os dias, e certamente com muitas das grávidas neste país, as pessoas olharem e fingirem que não vêm. Sim, as pessoas viram-se de costas depois de olharem de alto a baixo e repararem na barriga, para não terem de dar prioridade num supermercado e alegarem “não vi, está grávida é?” “Não, não, comi demais ao almoço”. Eu confesso que não tenho necessidade (ainda) de ter de passar à frente nas filas, porque uma barriga de cinco meses ainda não me pesa ao ponto de não conseguir esperar um pouco, e por isso não peço para o fazer, mas custa-me olhar em volta e dar conta do desprezo das pessoas. 
“Estar grávida não é doença” é o comentário que mais ouço nos supermercados, lojas, transportes e afins, e confesso que me deixa um pouco aborrecida. Não é doença é verdade, mas já se questionaram se a pessoa está a passar bem? Se não tem quebras de tensão? Se não se sente extremamente cansada? Todas estas questões passam ao lado do comum cidadão, e porquê? Porque infelizmente, e com muita vergonha o digo, as pessoas não querem saber, não estão nem aí para o que se passa fora da sua bolha egoísta e narcisista. Eu sei que não serão todos assim, e ainda bem, talvez ainda reste alguma esperança de que o civismo e bom senso prevaleçam numa sociedade em que apenas se olha para o próprio umbigo.
Podemos pegar no artigo 3º do Decreto-Lei n.º 58/2016 relativo ao atendimento prioritário, que na verdade, não deixa margem para dúvidas,

"Dever de prestar atendimento prioritário
1 - Todas as pessoas, públicas e privadas, singulares e coletivas, no âmbito do atendimento presencial ao público, devem atender com prioridade sobre as demais pessoas:
a) Pessoas com deficiência ou incapacidade;
b) Pessoas idosas;
c) Grávidas; e
d) Pessoas acompanhadas de crianças de colo.(...)"

mas o que me aborrece mesmo, é que as pessoas não o façam de livre e espontânea vontade. Mais do que viver numa sociedade com leis (que não são cumpridas) esperava viver numa sociedade em que as pessoas são educadas a olhar para fora do seu mundo limitado, e em que se preocupam, um bocadinho que seja, com o próximo. Por enquanto vou aprendendo a lidar com um mundo muito diferente, o mundo onde vou educar a minha filha, onde a espero tornar uma cidadã que olha para os outros e vê mais que peões neste jogo de tabuleiro que é a vida.

(A imagem é de uma campanha levada a cabo pela Ogilvy Shangai, em 2015, que teve como objetivo consciencializar as pessoas para a importância de ceder o assento a mulheres grávidas.)