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E se a decisão fosse não sermos mães?



Agora percebo a opção de muitas mulheres em não quererem ter filhos. Percebo o porquê, por trás de uma anterior percepção de que seriam pessoas egoístas. Percebo o porquê de famílias quererem ficar só por um filho. Percebo e, se antes julgava essas atitudes, percebo-as agora de forma clara e sem margem para dúvidas. Não querer ter filhos, ficar apenas por um filho, ter todas as oportunidades do mundo para fazer o que bem entendermos e quando entendermos.

Ter filhos é um constante desafio num mundo já de si desafiante. É aceitar que primeiro estão eles e só depois estamos nós. É perceber que todos os sonhos e planos de antes, que se conseguiria contornar a rotina, que o tempo para nós existiria, que a relação continuaria igual, que seriamos as mesmas pessoas depois de os termos connosco, não funciona bem assim. Não funciona de todo. Tudo muda. E apesar de ouvirmos constantemente a ideia tudo muda, mas para melhor, também não é bem assim. Nem sempre muda para melhor. A nossa liberdade perde-se, a nossa identidade perde-se. Perde-se a espontaneidade e perdem-se os sonhos. Perdem-se relações pelo caminho. Perdem-se horas de sono, perdem-se planos que ficaram em stand-by e, muitas vezes, talvez até demasiadas, perde-se amor. Talvez não se perca, mas transfere-se. Passa todo para a relação mãe e filho e pouco mais sobra. Perdem-se palavras que ficam presas na garganta por um bem maior, perde-se o coração dentro de uma pessoa tão pequenina. Chegam as dúvidas, chega o medo, chega a dor de não sermos as melhores do mundo, chegam os sacrifícios e, apesar dos nossos maiores esforços, não nos abandonam nunca mais. Chegam os momentos em que parece estar tudo preso por fios, cada vez mais frágeis, cada vez mais quebradiços. É essa a verdadeira luta. É esse o grande desafio da vida. Por mais amor que exista, por mais amor que nos una, é cansativo lutar todos os dias para manter o que nos ligava. O que nos unia. É cansativo travar batalhas todos os dias para o amor permanecer, superar tudo, salvar-nos no meio de tantas noites sem dormir e de tantas palavras por dizer. Porque chegam os dias em que nos apetece baixar os braços, carregar no reset e decidir de outra forma. Mas e se fosse possível voltar atrás? Seríamos capazes de amar da mesma forma?