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Após o parto: Descansar ou Levantar, eis a questão


Quando estava grávida, a minha gata também estava grávida. Era uma gata adoptada, daquelas meias selvagens mas meigas, que se vão aproximando da casa em busca de alimento e carinho. As minhas maiores mestres na gravidez foram esta gata, a Mari (era o nome suplente que tínhamos lá por casa, sempre que aparecia um mamífero fêmea para ser adoptado) e a minha avó Glória.
Uma das minhas maiores dúvidas estava relacionada com o descanso no pós-parto. A mensagem transmitida pelos profissionais de saúde materna ia no sentido da mulher se levantar logo nos dias seguintes após o parto, para trabalhar os músculos da zona pélvica e para não ficar deitada e deprimida. Gravidez não é doença e pós-parto também não, por isso toca a mexer.
Pareceu-me sempre mais um assunto do género daquele da posição ideal para o bebé dormir; uma recomendação que muda de dez em dez anos e de cada vez que muda, o que anteriormente era feito passa a ser mentira absoluta e ai de quem o faça.

A minha resistência em aceitar esta nova teoria vinha do facto de ter estudado no Instituto Macrobiótico de Portugal, com muitos professores e professoras adeptos acérrimos da natureza e com uma confiança total na sua sabedoria, entre os quais Francisco Varatojo (esse homem bom e sábio que nos deixou este ano), Eugénia Varatojo e Laura Dinis. 

Aprendi com estas e algumas outras pessoas a conhecer o meu corpo e a respeitá-lo, a sentir o que deveria fazer, não por ser uma teoria vigente, mas porque assim o sentia, eu, pessoa única e irrepetível, como tudo na natureza. Aprendi que se observarmos a natureza e os seus ciclos podemos aprender muito sobre nós mesmos e sobre a vida. E foi assim que decidi questionar a minha avó, sobre os velhos tempos em que também ela tinha estado grávida.
A minha avó disse-me que quando os bebés nasciam ela não fazia nada e só ficava deitada com o bebé, a amamentar. Disse que nem se mexia e que o meu avô lhe preparava as refeições e mudava a fralda ao bébé; e que todos os dias vinham mulheres lavar o bebé  e as fraldas.
Entretanto a minha gata pariu e observei o que ela fez – nada. A Mari limitou-se a permanecer deitada durante 1 semana, sem comer, sempre disponível para os gatinhos. A única comida que comia era a que lhe era colocada mesmo junto à boca. Tinha comido a placenta e estava preparada para aguentar este período de jejum.
Perante estas descobertas, decidi estudar o que se faz e fazia nas sociedades tradicionais. Percebi que em algumas, as mulheres se recolhem com o bebé durante 40 dias, em que fazem uma dieta especial e se limitam a amamentar e a “namorar” o bebé. Na Índia as mulheres ficam deitadas 11 dias; Na Indonésia e Malásia as mulheres recebem semanalmente uma massagem com óleos e ervas especiais, que ajudam o seu corpo a regressar à sua condição natural. O estômago das mulheres é embrulhado para ajudar a segurar e fortalecer os músculos.

Na vida actual, em que os casais vivem isolados em apartamentos, sem a ajuda de familiares ou amigos, este recolhimento torna-se mais difícil, pois é necessário tratar da preparação das refeições, da casa, para além dos cuidados normais com a criança.
Após o parto natural e domiciliário que vivi, compreendi por experiência própria que é vital para a mãe e bebé este descanso depois do nascimento, para que se adaptem à sua nova vida. Primeiro o bebé adapta-se ao quarto, depois ao resto de casa e só quando se sente seguro neste ambiente é que deveria ser levado para fora, sempre próximo da mãe (e do pai!). A sua condição interna ainda está muito instável e os seus ossos estão a ajustar-se depois do parto. Muito barulho e muitas visitas podem fazê-lo ficar muito irrequieto e choroso. A ajuda dos familiares para ajudarem a cozinhar ou arrumar deveria ser garantida, para a mulher poder descansar completamente, sem ter preocupações. Isto ajuda a que o seu leite seja abundante e de boa qualidade. O stresse gera acidez que passa para o leite e o leite ácido provoca cólicas. Este descanso deveria, idealmente, ser completo, mantendo leituras de livros ou televisão ao mínimo, assim como as visitas. No meu caso, descansei durante algumas semanas mas, imediatamente depois de ter tido o bebé, permaneci na cama na horizontal, durante cerca de 24 horas. Levantei-me apenas para ir à casa-de-banho. A posição horizontal permite que o útero volte à posição normal (pode colocar um peso por cima da barriga) e previne excesso de hemorragia. Ajuda ainda na produção de leite rico e nutritivo. A sucção do bebé estimula a contração do útero.  
Não sei se a teoria vigente sobre esta questão já mudou ou se irá mudar em breve, consequência de novos estudos científicos, mas foi esta a minha investigação. Acredito que cada uma de nós poderá fazer a sua e chegar à mesma conclusão, ou não.

Ainda assim, julgo ser importante realçar nos dias de hoje, em que nos transformamos em seres tão distantes das nossas origens, da terra, do sol, do mar e do vento, que naturalmente estamos preparadas para ser mães, amamentar e que tudo se harmoniza quando a nossa natureza é respeitada.