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SOBRE A NATURALIDADE DO PARTO

O parto serve para fazer o bebé nascer, não para fazer a mulher sofrer. Se o objectivo da mãe é criar uma criança naturalmente, o parto é de uma importância crucial, do ponto de vista físico, emocional e mental, pois pode causar (e frequentemente causa) traumas. Claro que tudo é recuperável, mas se estamos interessados na verdadeira prevenção, então este é um ponto-chave. A mulher deve estar atenta e activa durante o trabalho de parto do seu bébé: deve preparar-se, aprender o que esperar e compreender as opções que tem à sua disposição. Em geral, quanto menos invasivo for o parto, melhor para a mãe e o bebé.
Se uma mulher for saudável, e se não existir nenhum problema na gravidez, o parto “planeado”, “imaginado”, deveria ser natural. É frequente, lamentavelmente, tal não ser possível, devido à sua medicalização. Práticas como provocar/marcar o parto, uso de soro com hormona de ocitocina, proibição de comer e beber, monitorização fetal contínua, restrições de movimentação, rompimento artificial da bolsa de águas, posição deitada/inclinada, episiotomia, fórceps e ventosas, corte imediato de cordão umbilical e mesmo a medicação para alívio da dor/anestesia, transformam o que poderia ser uma experiência transformadora e profundamente empoderadora da mulher, numa sequência de ocorrências em que ela sente que não tem intervenção, que não dependem de si. Para não falar do bebé, daquilo que perde para a sua saúde, a todos os níveis, quando não passa tranquilamente pelo canal vaginal.

Mas será que o parto pode estar na “mão” da mulher?
Existem muitas formas naturais de aliviar a sensação física fortíssima que se sente quando “a terra treme” no colo do útero, a zona que precisa abrir para que o bebé possa passar: massagens, medicamentos homeopáticos, carinho das pessoas à volta (sobretudo do companheiro), uma piscina de parto com água, exercícios respiratórios, etc., mas nenhuma dessas formas exteriores tem qualquer comparação com a consciência do corpo e daquilo que está a acontecer. Essa consciência permite à mulher focar a sua atenção ali mesmo, no local do “terramoto”, no epicentro das contracções, que muitas vezes lhe dizem para esquecer ou aguentar. Mas para ultrapassar a dor é preciso vivê-la. Isso aplica-se em tudo na vida e o parto não é excepção. Conhecer, vivenciar com todo o seu ser este momento pode ser bastante difícil, sobretudo para alguém que nunca passou pela experiência, e pode parecer contraditório enfrentar, sentir a dor, quando na verdade queremos fugir dela. Mas é precisamente essa plena consciência do que está a acontecer em cada momento que permite à mulher relaxar o corpo a um ponto em que começa a produzir naturalmente os seus próprios analgésicos, que irão atenuar a dor e acalmar o seu espírito (acalmando por consequência o bebé), e mais tarde produzir outros químicos, como a adrenalina, para os momentos finais, o período expulsivo.

A mulher que se entrega de corpo e alma ao processo está tranquila, atenta a si, sem olhar para fora, como que numa espécie de transe. Isto é natural e todos os mamíferos estão preparados para o parto.

Um parto perfeito é aquele ao qual se assiste tranquilamente, num canto do quarto, e no qual praticamente não se intervém. Não depende de médicos nem de enfermeiros, a não ser se algo estiver fora da normalidade. Não existe fórmula para o sucesso, mas se existirem alguns ingredientes chave, existe maior probabilidade de tudo correr como sonhado (se for este o sonho!). 

São eles:

  • Ser saudável (nos meus artigos anteriores dei algumas dicas para a fase pré-natal) e querer um parto natural.
  • Respeito pelas escolhas da mulher para o parto.
  • Hábitos de escuta do corpo, atenção e desenvolvimento da sensibilidade e consciência corporal através de práticas relaxantes e/ou meditativas.
  • Comunicação com o bebé.
  • Capacidade de entrega incondicional, sem medo e com confiança na natureza.
Uma coisa é garantida e ninguém pode fugir disso: o trabalho de parto é intenso. E é natural!
Acredito que é com naturalidade e intensidade que deveria ser vivido: com amor, atenção, entrega, comunicação e tranquilidade.

No próximo artigo irei focar-me no descanso da mãe, após o parto, outra tema controverso, já que nas sociedades tradicionais (e na natureza!), se aconselhava a mãe a descansar durante longas semanas de modo a recuperar completamente a energia dispendida no exigente trabalho de parto.