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A nossa viagem natalícia



Vou propor-te um desafio, ainda que sejas um menino com todos os desejos do mundo, ainda que para ti tudo seja tão simples como querer é poder, ainda que eu, o pai e todos os quantos te gostam queiram sempre satisfazer os teus desejos, quero propor-te um desafio.
Porque quero mostrar-te também a magia do Natal, aquela magia verdadeira do faz-de-conta, das fadas e dos duendes, do senhor vestido de vermelho e com aquelas barbas brancas tão características da sua figura paternal. Quero mostrar-te que o Natal não são só os catálogos carregados de brinquedos, as prendas empilhadas em baixo da árvore, o corre corre e o entra e sai das lojas para adquirir mais um presente.
Quero pedir-te que feches os teus olhos, que encerres a tua mente, que oiças apenas o ruído à tua volta. O som vem das colunas de uma grande avenida branca. Nelas soam cânticos de natal, um qualquer Jingo Bels que nos remete para um trenó. Pega nessa mão e aceita a ajuda que te leva a montar nele e continua a deixar a tua mente vazia de pensamentos. Ouve o som das renas, dos sinos no cimo do barrete do duende verde que está ao teu lado, das pisadas da neve que a cada passo ficam mais perto de ti. E agora sente o ar, sente a brisa que vai percorrer a tua face, que vai remexer os teus cabelos, que vai dar-te um friozinho especial na cara e no coração. Estás a pairar sobre o mundo. Estás a voar sobre a vida. Estás a flutuar sobre nós. É aí que vais perceber a essência desta época. É aí que te vais dar conta que as coisas não são tão simples quanto pensas. É por aí que aprendes que o significado do natal vai muito mais além de meros brinquedos, de inúmeros chocolates, de correrias desenfreadas. Consegues ver aquele velhinho à beira da lareira, aguardando pela chegada da família que não irá? Consegues ver aquele menino que está no hospital porque está doente e não pode ir a casa? Consegues ver aquela família que não está reunida porque o pai tem de trabalhar longe? Consegues ver aqueles meninos que brincam com um carro e uma boneca já velhinhos? É meu dever ensinar-te que a vida tem um custo incomensurável. É meu dever chamar a tua atenção para as coisas que podem ser um nadinha mais difíceis para uns do que para outros.
Sabes a verdadeira magia do natal? É que apesar das muitas tristezas, apesar das faltas, das ausências, apesar da dor, apesar de muitos meninos não terem o que vestir, comer ou onde dormir há sempre algo pelo qual os seus olhos brilham. A isto meu filho e meu amigo eu chamo de sonhos. E enquanto tiveres os teus sonhos bem assentes, enquanto não desistires, enquanto não os colocares na gaveta serás capaz de ver no natal muito mais do que uma época de consumismo e trocas. A verdadeira magia do natal é aquilo que nós conseguimos dar ao outro apenas e só por existirmos. A verdadeira magia do natal estará sempre no centro do teu coração.
Nunca te esqueças desta viagem. É para a vida. A viagem dos teus sonhos. Nunca te esqueças que nesse trenó levas a esperança, os desejos, as ambições e a vontade de ir sempre mais longe, custe o que custar, venham os obstáculos que vierem. Agora distribui isso aí do alto. A humanidade precisa de sonhos, os homens e as mulheres estão tão fixados em metas e objectivos que se esquecem do essencial. Sopra a esperança de que tudo isto volte a fazer outra vez sentido e espalha os desejos que se apagam com o passar dos dias e com as rotinas exageradas.

Agora abre os teus olhos e abraça-me. Encosta o teu coração ao meu e aquece a minha alma. Senti a tua falta nesta curta “viagem”, mas o dever de mãe é esse mesmo, saber que haverá alturas que não precisarás das minhas asas para voar mas apenas para te amparar sempre que o precisares. Que saibas sempre que os melhores presentes de natal foram aqueles que distribuiste lá do alto, para que todos nós pudessemos acreditar um pouco mais nesta magia chamada vida.