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A menina que nunca teve Natal



Na minha infância o natal não existiu. Nunca tive Natal. Sou a menina que cresceu noutra religião, a dos pais, e que foi educada segundo a sua fé. Umas vezes íamos para a terra e estávamos com toda a família, pelo simples facto de que era a altura em que conseguíamos estar todos reunidos (eram dias simples e bons), outras vezes ficávamos por casa a fazer vida normal. Não os culpo por nada, respeito-os até por serem tão fieis à sua fé num mundo de tentações.

Não existia árvore de Natal, troca de prendas, compras de Natal, listas de presentes, histórias de natal, decorações, globos de neve, passeios... O Natal só era Natal porque o via na TV e nas montras, mas ainda assim, nada comparado com o presente. E, como nunca tive Natal, nunca me fez falta. Não podemos sentir falta daquilo que nunca tivemos e não sabemos como é. Parece estranho, mas é a mais pura verdade.

Cresci, por isso, com uma relação nula com esta quadra e só quando me tornei mãe comecei a olhar para o Natal, mas sem saber bem onde me situar. Como não tive educação católica, não me fazia sentido começar a encher a casa de Natal e contar a história do menino Jesus, cuja versão nem é a que me foi ensinada. Por outro lado, não queria que o pai se sentisse sozinho na missão de dar um Natal ao Duarte e comecei a criar aos poucos a nossa versão do Natal, que para mim passa por torná-lo especial para ele, através de passeios, momentos em família e atividades, como as outras famílias fazem. 

Passaram quase 5 anos e a verdade é que já adotei algumas tradições, como montar a árvore (nos primeiros anos essa parte pertenceu ao Pai), decorar a casa, fazer bolachas, criar um calendário do advento, este ano, pela primeira vez, até fiz um personalizado cheio de pequenas atividades. Consigo sentir alguma magia, até porque sou particularmente dada aos trabalhos manuais e à decoração, mas continuo a ter uma relação de amor - odio com o Natal.  

Não lido bem com o consumismo levado ao extremo, com as montras de outubro, com os 50% em brinquedos a apelar ao consumo desenfreado, as black fridays, as cyber mondays, as campanhas para tudo e mais um par de botas, as listas intermináveis de presentes para toda a família, como se fosse obrigatório termos capacidade de só dar bons presentes, daqueles que enchem o olho. As pessoas perdem-se no Natal e exageram no "espírito". E eu cá ando, ano após ano, a procurar o meu lugar, a fazer contas, a planear listas, a reduzir listas e a limitar despesas para fazer cumprir o Natal. E sinto que a rotina é a mesma todos os anos que passam e às vezes cansa-me. Gosto de dar e receber, mas não gosto da obrigatoriedade. Defeito ou feito, foi assim que esta menina virou mulher.

Por outro lado, entro também em conflito interno porque apesar de não lidar com este consumismo de massas, acabo por também entrar nesta teia e não ficar totalmente alheia ao consumismo, sobretudo para o Duarte, gosto de lhe dar presentes especiais, porque sou mãe e porque fico com o coração amolecido por vê-lo feliz. Quem não fica?

Do que gosto verdadeiramente no Natal?

Gosto dos jantares com amigos, das reuniões familiares, das fotos caseiras, do cheiro a filhoses da minha avó, da lareira, das luzes nas ruas, do assador de castanhas, dos bombons com recheio, de fazer trabalhos manuais com o Duarte, do bolo rainha, do bacalhau, do tabuleiro de bolachas de gengibre, das prendas caseiras que faço, das tardes de filmes e do pijama polar. Gosto de ver coisas bonitas e por isso gosto das formas, dos detalhes e da "estética" do Natal, e é nisso que me deixo levar. E apesar de ficar irritada com gastos supérfluos, gosto de mimar e dar presentes homemade.  
  
Mentiria se disse-se que não tenho desejos materiais e vontade de comprar coisas que gosto, partilho algumas por aqui no blog, mas sei que posso passar perfeitamente sem receber prendas no Natal que não me faz diferença, prefiro que as capitalizem para os meus, para o Duarte e para o bebé a caminho.  Os meus pais nunca me deixaram faltar nada, sempre tive acesso a tudo, sem datas e momentos "obrigatórios" e talvez por isso tenha esta espécie de “toca e foge” com o Natal. Gostava de sentir mais o espírito e menos a "obrigação". 

Por isso, vou continuar a apostar num natal mais minimalista e mais descomplicado, onde o "estar presente" é superior ao valor material entregue.

"As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo."
- Giacomo Leopardi

Artigo adaptado de​ www.blogbabytime.com  ​