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Mãe com Cancro

Este mês faz 3 anos! Há aniversários que não queremos festejar, que fazemos apenas um convite ao vento e ao tempo. O primeiro que sopre as velas, o segundo que dizem que leva a dor e que cura.
O tempo levou há 15 anos o meu primeiro cancro. Chamava-se linfoma de Hodgkin. Era um nome novo e com a ingenuidade dos meus 22 anos, enfrentei sem medos! Nessa altura acreditei que o desfecho da minha viagem não podia ser este, pois não acabaria os meus dias assim, com o vazio de não ter sido mãe. Deus ouviu-me! Refiz a minha vida, com projetos, com uma vida profissional muito intensa – mais do que devia, soube depois – mas senti-me realizada. Ao meu lado, quem amo! Nos meus braços, dois filhos, tal como sempre desejei. Primeiros passos do meu filho. No caminho, um maligno cancro desta vez para contrariar, Não-Hodgkin de tipo indefinido. Ninguém sabia se o outro acordou, se era uma mutação ou um indivíduo novo, aparentemente mais agressivo. Esse indivíduo acompanhava-se do Medo da morte com quem tive que conviver. Ambos estiveram comigo nas salas de cirurgia, nas consultas, nos tratamentos, nos constantes internamentos. Quando estava com os meus filhos, o meu amor enchia a sala e o Medo não cabia. Se por um lado, quando se tem cancro e se tem filhos é mais difícil escapar ao Medo, por outro os filhos dão-nos coragem e força. Houve alturas em que vesti a pele de uma mãe leoa a proteger as crias e assustei o medo.
É difícil escrever este texto sem metáforas, pois quero fugir ao Eu de não ver os primeiros passos do meu filho, de os beijar atrás de uma máscara, de não ter força para dar colo ao meu bebé, de não poder ir fazer atividades simples com eles (cinema, teatro), de lhes contar a história por videochamada junto dos meus robots de quimioterapia ou de os ver da janela do hospital. Janela que me ligava a um mundo de sonhos onde avistava duas crianças à espera do olhar da mãe.
Apesar das circunstâncias, tentei estar lá, da forma que consegui, superando por vezes as minhas forças. Se não podia sair para nadar, correr, pude fazer jogos de tabuleiro. Se não tive força para pegar em ti ao colo, abracei-te no chão, palco de estórias e contos. Vimos filmes em casa, brincamos às máscaras e fizemos teatros.
Se advertida a não estar presente na festa de aniversário do meu filho, junto com crianças sujeita a apanhar uma infeção, organizei um baile de máscaras, mascarando a própria máscara que tinha que usar. Frida Kalho não foi de cama para uma exposição? Aprendi que na vida há sempre uma solução, temos é que querer encontrá-la. Cada uma de nós vive a doença à sua maneira e não existem fórmulas mágicas.
Quando me foi diagnosticado o linfoma, o meu filho mais velho tinha apenas 5 anos. Como o quero educar na base da verdade e confiança contei desde logo o que a mãe tinha e o que previa acontecer. Apenas camuflei a dor, o cansaço e sobretudo o Medo, com uma capa de humor. O humor foi um ingrediente que ajudou a vencer. Desde brincar com a careca da mãe, a rainha dos turbantes, à naturalidade do cabelo crescer e ter uma mãe renovada. Munimo-nos de muitas pessoas amigas, a quem estou eternamente agradecida e que ajudaram a tornar esta fase, mais feliz. Tirei partido do tempo. Nessa altura, o tempo parou e apercebi-me que enquanto mãe ativa raramente me dediquei por inteiro, sempre no corrupio das coisas e coisinhas, do trabalho e trabalhinhos.
Acredito, por isso, que o cancro foi o lado mais negro da minha vida mas que me ajudou a ver a luz mais brilhante da mesma. Consigo ver uma aprendizagem e uma possível mudança a partir da fase, seguramente, mais dura da minha vida!
No meu papel de mãe, quero ter uma entrega por inteiro, quero deixar a herança de como viver feliz, de como Ser. A melhor educação que lhes posso dar é ser exemplo de um amor que vence os medos, que luta contra monstros e que transforma as adversidades da vida em ensinamentos.
Em relação a ti, mãe com cancro, quem me dera ajudar-te! Como conheço os teus medos, a tua revolta! Injusta a tua situação, é!
Para que saibas que não estás só e que tens razão! Sente a raiva, a indignação e o Medo! Quando pronta, tenta largar e agarra-te ao que vale a pena guardar! Acredita que os dias possam ser longos e melhores!
Uma mãe com cancro não pode estar só. “Uma mãe não está só” - este é o lema do nosso projeto e é por isso que te escrevo. Poder ser para ti testemunho de esperança, uma espécie de companheira de uma viagem, que não pode terminar sem vermos os nossos filhos crescer…
E se um dia esse indivíduo nos voltar a visitar espero que nessa altura os nossos filhos já tenham embarcado pelo mundo e que levem na bagagem a nossa Coragem de mãe.
Para já queremos estar do lado de cá, num abraço que aperta a vida e protege o nosso amor.

Que assim seja…