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Este país não é para filhos doentes




Escrevo este texto enquanto estou em casa a cuidar da minha filha mais nova, que está doente. Nenhuma doença grave, que inspire grandes cuidados, mas está doente. Enquanto a vejo cirandar de um lado para o outro, penso que ainda temos muito que evoluir e que melhorar neste nosso pequeno grande Portugal. Infelizmente e pelo que oiço de várias outras mães, sou uma privilegiada. Sou uma privilegiada porque posso faltar ao meu trabalho para cuidar das minhas filhas quando estão doentes. Se calhar até estou errada, mas devia ser um privilégio uma mãe (ou pai) poder tratar dos seus filhos quando eles mais precisam de si? Será um favor que a minha empresa me está a fazer? Não é esta uma falta mais do que justificada? Claro está que existem e vão existir sempre baixas fraudulentas, mas – espero eu! - nenhuma mãe “põe” o seu filho doente só porque não lhe apetece trabalhar. Agora o que é verdadeiramente triste e revoltante é ter uma lei que até nos protege e a realidade da sua aplicação no meio empresarial estar tão distante da sua génese.
«Tens a miúda doente? Ah, que chatice… Fica com a avó, não é?»
«Os meus filhos passam o inverno doentes, se fosse faltar cada vez que isso acontece, era rua na certa...»
«Febre? Ben-u-ron antes de ir para a creche,ainda consigo ir trabalhar pelo menos ate à hora de almoço antes de ligarem para o ir buscar!»

Exemplos de conversas destas são às dezenas… Quem é a mãe que nunca ouviu ou mesmo o disse? Infelizmente temos empresas que não nos tratam como mães ou pais que somos, mas sim somente como funcionários. E nós não somos somente funcionários. Somos pessoas. Sim, claro que somos contratados para trabalhar e se não for para isso não estamos lá a fazer nada, mas somos também seres humanos que merecemos ser tratados como tal. E se um ser humano tem um filho doente, é normal e suposto que queira estar com ele e que seja a pessoa certa para o fazer. Isto não significa que avós, tios, irmãos ou amas não sejam ótimos cuidadores e ajudantes, mas a questão é que nos deve ser dada a pais e mães, a possibilidade de sermos nós a cuidar dos nossos filhos doentes. Sem cobranças nem pressões. Sem olhares de soslaio e sorrisos amarelos. Sem comentários maldosos. Porque nenhuma mãe ou pai tem o filho doente porque lhe apetece.