0

Sensibilidade e (muito pouco) bom senso


Nunca fui uma pessoa muito emotiva no que toca a filmes, vídeos ou imagens. Verdade seja dita, cresci, sem internet e sem acesso a todas estas coisas que agora fazem parte da nossa vida diária. Ainda assim, não me lembro de chorar em filmes, com excepção para “O Meu Primeiro Beijo”, tinha eu uns dez ou onze anos. Nesse chorei baba e ranho e ainda recordo bem uma das cenas mais tristes do filme. Depois disso, nunca me emocionei (mesmo que por vezes, ao ver determinada cena num filme, ficasse com um nó na garganta).
Ora, tudo mudou quando engravidei. Em grávida, virei carpideira, de olhos humedecidos perante o mais inocente vídeo ou imagem. Eu chorava a ver documentários, eu chorava a ver filmes, eu chorava com vídeos no YouTube. Em suma, eu chorava com tudo e não era preciso ser algo particularmente emocionante, segundo os padrões normais. O apogeu da minha fase carpideira foi quando não consegui conter as lágrimas ao assistir ao último episódio de um programa de televisão aqui do Reino Unido. Tratava-se do “Great British Bake Off”, uma competição em que os participantes disputam o título de melhor pasteleiro. Quando foi anunciado o vencedor, não me consegui conter ao vê-lo feliz a saborear o momento com a família. Um reality show e ali estava eu lavada em lágrimas.
Algum tempo após a gravidez, a biologia fez o seu trabalho e as hormonas estacionaram em níveis bastante mais aceitáveis. Só que nunca mais voltei ao estado pré-mamã. A carpideira que havia em mim debandou para outro lado mas deixou cá um pequeno rastilho e a lágrima é hoje muito mais fácil do que antes. É frequente emocionar-me com partilhas de vídeos nas redes sociais ou a ouvir determinadas músicas. Não correm lágrimas mas aperta-se-me o coração com mais facilidade. Notícias que antes seriam tristes, agora são tristes e muito difíceis, sobretudo as que envolvem maus tratos e abusos a crianças. Esta é uma área que se tornou particularmente sensível e creio que seja comum à maioria dos pais.

A natureza sabe bem o que faz e acredito que esta sensibilidade acrescida seja um modo protector que criou para garantir a continuidade da espécie. Felizmente, recuperei o bom senso e as minhas lágrimas estão agora mais selectivas e guardadas para outras ocasiões que não sejam finais de competições televisivas. Vídeos com gatinhos, por exemplo.