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O Teu Parto…

Tenho sempre muito pudor no que toca a falar sobre mim, a minha vida e as minhas experiências. Expor tais aspetos publicamente não é algo que me agrade, muito menos quando isso implica a exposição de outras pessoas. Mas este caso,… este caso é diferente... Porque a minha filha merece, o meu marido merece e as profissionais de saúde – tantas vezes  criticadas! – que me acompanharam merecem. Muitas vezes, referimo-nos ao parto do nosso rebento como “o meu parto foi…”. Na realidade, o nosso parto aconteceu quando nós próprias nascemos. O parto do nosso rebento é o SEU parto, pertence-lhe a ele. Apesar de sermos figuras fundamentais naquele momento, gosto de pensar que ele é o protagonista, logo desde a primeira contração. E, por isso, escrevo em jeito de carta para que um dia, quando já for mais crescida, a minha filha possa ler aquela que é a primeira página do livro da sua vida.

O Teu Parto…
         
O teu parto começou no despontar de dezembro. Na verdade, podia dizer que começou uns dias antes numa consulta em que a médica fez um toque um pouco mais invasivo e na consequente saída do rolhão mucoso... mas concentremo-nos no Grande Dia. Às 05h da manhã, a Mamã foi à casa de banho e reparou que tinha as pernas húmidas. Imediatamente, percebeu (ou sentiu, não sei bem…) que a bolsa de água tinha rebentado. Chamou o Papá, mas ele não acreditou (mito 1: quando a bolsa de água rebenta não é, necessariamente, libertada uma quantidade oceânica de água). Mas a Mamã tinha a certeza: a hora tinha chegado! Depois de tomar banho, seguimos para o hospital (mito 2: quando a bolsa de água rebenta é necessário ir para o hospital, mas não em marcha de urgência! Há tempo para um banho relaxante, dar uma última olhadela na mala da maternidade e encher o peito de ar e pensar: “quando regressar a casa, já não trago o bebé dentro da barriga, mas sim ao colo!”).
A Mamã foi internada pelas 07h da manhã. Depois dos exames habituais e de confirmarem que te encontravas bem, a felicidade era total: estava prestes a ter-te nos braços! O médico disse que estavas na posição ideal para nascer e que não eras um bebé muito grande. Isso deu confiança para pôr em prática algo que desejava e que, durante a gravidez, partilhara com muito poucas pessoas: ter um parto sem epidural! A Mamã conseguiu estar sempre sentada na bola de pilates, inclusive enquanto fazia o CTG (mito 3: não é obrigatório estar deitada na cama para fazer o CTG). As contrações ainda não eram regulares e, como estava acompanhada por outra mamã em trabalho de parto, o tempo pareceu passar depressa. Ao início da tarde, a Mamã ficou sozinha e essa solidão deu espaço à ansiedade que começou a atrasar o desenvolvimento do trabalho de parto. Sentia falta da calma e serenidade do Papá. Mas ele não podia estar naquela sala. Foi aí que surgiram duas personagens muito importantes na tua história: as enfermeiras Ana Marta Pereira e Chantal Prudêncio.
A enfermeira Marta percebeu o quanto a Mamã precisava de estar junto do Papá e arranjou uma solução: sugeriu que fôssemos para a capela do hospital! “Afinal, está sempre vazia...” – disse ela. E, assim, fizemos. Em algumas horas, a progressão do trabalho de parto foi impressionante. Tudo se encaminhava para o teu nascimento. Antes ainda de irmos para o quarto, a enfermeira disse à Mamã para ir tomar um banho quente, enquanto estava sentada na bola de pilates. Quando não é administrada epidural, há que recorrer a estes métodos naturais de alívio da dor (mito 4: a toma da epidural não é obrigatória e deve ser sempre uma escolha consciente da mulher). Nessa altura, as enfermeiras comentaram entre si que a Mamã já estava notoriamente na “partolândia”. A Mamã não sabia o que isso significava, mas a verdade é que já estava demasiado absorvida pelas sensações que anunciavam a tua chegada para fazer perguntas.
Finalmente, a Mamã recebeu indicação para ir para o quarto. Era ali. Era ali que ias nascer. A hora aproximava-se. A dor intensificou-se e a Mamã começou a fraquejar. Durante esse período, foi muito mimada. Recebeu abraços e palavras de encorajamento. Foi até ao lavatório refrescar-se, enquanto a enfermeira Chantal lhe fazia uma trança no cabelo. As últimas horas não foram fáceis e pareceram muito longas. A Mamã gemeu e gritou, mas não foram vocalizações de dor. Foram como que sons apotropaicos. Ajudaram a afastar o medo que surgiu naquela hora. Aquela sensação de que não ia ser capaz quando, afinal, já se vislumbrava a meta.
Nasceste pelas 19h. Enquanto saías de dentro da Mamã, as enfermeiras disseram para olhar para a janela. Através do vidro, via-se o fogo de artifício que marcava a inauguração da iluminação de Natal. Rimos com lágrimas de alegria. Pareceu tudo perfeito. Tudo foi perfeito. Foste colocada sobre o peito da Mamã. O Papá cortou o cordão umbilical. E, assim, ficámos. Os três. Entre lágrimas. A única frase que consegui pronunciar foi: “É a minha filha! É a minha filha!...”.

Que bela história, minha filha. Que belo parto, o teu. Vieste ao mundo quando escolheste e da forma mais natural possível. Envolta em amor e com fogo de artifício. Que também assim seja a tua vida: uma festa cheia de luz…