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Na escola onde os meninos não fazem nada... brincam

O Jaime entrou para a escola. Quase, quase, a completar 3 anos de idade. E eu, enquanto mãe que vê o seu primeiro filho dar estes passos e os dá com ele, deparei-me com questões que tinha como óbvias e com outras sobre as quais nunca tinha reflectido.

Sobre o sistema de ensino há muito que me interrogava, pesquisava e queria saber mais. O sistema “tradicional” não me enche as medidas, isso já sabia. Não corresponde à minha visão de infância, de glorificação da infância como altura de criar estruturas emocionais e de ser criança. E entra, até, muitas vezes em conflito com as minhas noções mais básicas de empatia e de respeito pela individualidade, pela diferença, pelas emoções.

Por este motivo, este desconforto que já muitos reconhecem e para o qual procuram soluções, optámos por uma escola que não se enquadra no padrão, mas que encaixa perfeitamente na nossa percepção do que deveria ser o trilhar de um caminho, num processo que viabiliza a transferência da segurança da criança que deixa a sua casa, mãe e rotinas pela primeira vez, não para outro adulto mas para ela própria, uma fonte de autonomia, um tempo de pausa e brincadeira, um tempo de felicidade. Não tenho como expectativa que uma criança de 3 anos faça na escola mais do que brincar. E não é minha expectativa que a brincadeira seja orientada permanente e estruturalmente. Também não espero que o valor pago mensalmente tenha de se traduzir em trabalhos manuais ou festas de final de ano cheias de habilidades treinadas. Não tenho essa expectativa e a escola que escolhemos para o Jaime não assume essa missão. E que bom que é. Que libertador e apaziguante, saber que o meu filho trabalha a sua autonomia brincando. Que não mascara a dor da separação com bens materiais, mas que a trabalha com as emoções partilhadas. Que ali ninguém lhe diz “não se chora”. Que ali abraça as árvores e rega as plantas com água e com magia. Que bom que é saber que ali a estrutura se adapta a ele e que não é ele que tem de se adaptar à estrutura. Que bom! E saber que somos respeitados nas nossas escolhas, como se aquele espaço fosse uma continuação da nossa casa: com jardim, plantas, areia, terra e ferramentas para a trabalhar (adaptadas à idade, claro), alimentação biológica e integral, sem açúcar e caseira... Tal como cá em casa. Saber que corre descalço, que sente e vive a natureza e que a integra nas suas brincadeiras, que é respeitado em todas as suas dimensões, que está à descoberta do mundo e de si mesmo, de forma livre e descontraída, que os presentes para a mãe e para o pai são flores que regou e depois colheu, pedrinhas que brilham, folhas que caíram, raios de sol que apanhou com as próprias mãos...
Que bom e apaziguador saber que tem tempo para ser criança e ser livre, e descobrir, nessa liberdade, a criança que é.
É oficial, o Jaime está na escola. E quando o digo, perguntam-me (tantas vezes, mas não deixam de me surpreender): “E o que fazem nessa escola assim de tão especial para a terem escolhido apesar da distância?”, eu respondo com a mais simples verdade e o mais verdadeiro sorriso: “Nada. Não fazem nada”.
BRINCAM.