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Querido Quico | Carta ao meu filho com paralisia cerebral 3

Querido Quico,
Sabes quem é a Bia, o Afonso e o Francisco? Claro que sabes. Não falas nem brincas mas claro que sabes quem são.

Pois, as mães são da grupeta dos descapacitados, como eu nos chamo carinhosamente.
Às vezes, a mãe e as mães desses meninos juntam-se e falam numa linguagem que só nós é que entendemos.

Poucas são as mães que entendem a dor de ir para o hospital para dar à luz um filho normal e trazem uma caixinha de surpresa diferente de qualquer criança que conheçam.
Poucas são as mães, que toda a vida vão ter que cuidar de um bebé que passa a criança e daí a adulto, como se fosse um eterno bebé.

Poucas são as mães que têm que lidar diariamente com as barreiras arquitectónicas, que não podem ir a lado nenhum porque não há casas de banho adaptadas ou com fraldários para 25kgs, que há escadas por todo o lado.

Poucas são as mães que se descabelam quando alguém "estaciona só 5 minutos para ir ao supermercado" no lugar dos deficientes. Poucas são as mães que entendem porque não se deve estacionar em cima do passeio (hello, há cadeiras de rodas que não se podem encolher para passar).

Poucas são as mães que vêm os seus filhos recusados nos atls ou nas escolas porque "não têm condições ou pessoal qualificado".

Poucas são as mães que não conseguem arranjar babysitter ou empregada porque não sabem como fazer com uma criança que não fala ou anda.

Enfim, são estas mães que têm uma linguagem muito própria e que também se sabem rir destas coisas. Resolvemos problemas umas das outras, sabemos do que falam porque já passámos por isso ou simplesmente rimos para não chorar.
No meio do caos tentarmos ser normais. E sabes, Quico? Se não fosses tu, eu não teria estas amigas especiais e que são para a vida! Estas e outras! Não me esqueço aqui de todas as outras com quem partilho dores, conquistas e alegrias. Sabes porquê? Porque a diferença juntou-nos!

Da tua mãe,