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Perda gestacional


Perda silenciosa, perda solitária, perda invisível, perda tabu, perda gestacional.

Numa sociedade que não sabe nem quer lidar com a dor, e a evita a todo o custo, a perda gestacional surge como um empecilho ao estado de dormência e é uma pedra no sapato da “normalidade”.
Há uma norma social subentendida, informal e generalizada que recomenda que a mulher grávida (e/ou o casal) não divulgue o seu estado até atingir a meta das doze semanas de gestação (cerca de três meses), altura convencionada como “segura” em termos de perda gestacional. Diz-se, com a interiorização e normalização desta regra, que a gravidez não deverá ser comunicada e celebrada com toda a família e amigos até à meta da suposta segurança porque, até essa altura, há um risco mais elevado (em termos comparativos com o restante tempo de gestação) de perda gestacional, de aborto espontâneo pela força da natureza, regra geral devido a malformações graves no embrião e/ou feto, incompatíveis com a vida desde o útero. E, por isso, por esse risco de se ver essa gravidez interrompida involuntariamente, não se conta a ninguém, ou conta-se a uns poucos com parcimónia e muita calma porque “tudo pode acontecer”.
Em termos mais abrangentes e holísticos (concepção, nas ciências humanas e sociais, que defende a importância da compreensão integral dos fenómenos e não a análise isolada dos seus constituintes), esta norma poderia ter outras explicações complementares, nomeadamente o facto de a sociedade, como um todo, não saber nem querer lidar com o desconforto da notícia. De uma forma totalmente egoísta e hipócrita, a sociedade opta por evitar o desconforto negando o conhecimento e, em última análise, a existência dessa gravidez recente e, consequentemente, a sua celebração. E ao negá-lo, nega também a perda, quando existe. Se ninguém sabe, não aconteceu. Nada abala a dormência social vigente que receia e evita os sentimentos mais fortes e a noção de perda e de apoio mútuo.
Quando uma mulher aborta espontaneamente e partilha a sua história com outras mulheres (ou porque já sabiam que estava grávida, ou porque pertencem ao seu círculo de conforto, ou ainda porque a mulher fez o seu processo e, do lugar da aceitação que alcançou, fala sobre o tema sem medos nem tabús), descobre um clube ao qual ninguém quer pertencer, mas que existe. Um clube secreto, do qual até então nunca tinha ouvido falar, mas que descobre agora que existe e que alberga um sem número de mulheres. Mulheres reais, com histórias duras, com dores físicas e cicatrizes emocionais. Mulheres que sabem que juntas são mais, são mais fortes e capazes de superar aquela(s) perda(s), e por isso mesmo, se juntam e apoiam numa busca também de serem validadas as suas histórias e reconhecida a sua dor. São mulheres que, para a soceidade, são traduzidas apenas em estatísticas: são as que foram a 1 em cada 5.
É difícil vivermos integrados numa sociedade sem nos deixarmos aculturar, mas é importante que façamos o exercício de escrutínio das normas sociais, de vez em quando. Daquelas normas que entram na nossa cabeça e na nossa vida sem pedir licença e que, de repente, são parte de nós, do que somos e de como pensamos e agimos. O pensamento crítico é fundamental para que possamos perceber quando é uma norma silenciosa que, de tão interiorizada, nos guia os passos. Estas mulheres, a maioria destas mulheres, está alinhada com esta norma e não partilha a sua gravidez, não partilha a sua perda gestacional, não partilha a sua dor, abrindo caminho à sua negação, ao isolamento, à invisibilidade, à ferida que teima em não sarar, à cicatriz que ainda dói. Negar uma dor tão pungente e avassaladora, com tal potencial destruidor, é negar o direito a senti-la, a reconhecê-la, a aceitá-la e a viver em paz com ela. É alinhar na dormência geral que corrói a alma e martiriza o corpo.

Se a sociedade se permitisse a experienciar a dor e a ver nela uma ferramenta, uma aliada, mais do que algo simplesmente a evitar a todo o custo com a primeira droga legal de venda livre, poderia trabalhar as emoções e os sentimentos de forma tão avassaladoramente diferente e capacitante que teria a força de mudar o mundo.