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Invocação

Certo dia, enchi-me de coragem e fui visitar uma amiga que conheci na guerra (um dia talvez explique esta metáfora) à Unidade de Transplante de Medula (UTM) do IPO de Lisboa.
Antes de entrar respirei 3 vezes, inspirei coragem e prometi que na expiração não me iria emocionar. Carregada de energias positivas e força para lhe transmitir dei os primeiros passos num corredor estreito onde do lado esquerdo tinha as janelas para a vida (aquela onde nós andamos todos e não damos valor) e do lado direito tinha os vidros onde se guardam soldados da vida, que lutam pacificamente por passar para a outra margem.
Tinha plena noção de tudo isto e senti-me preparada para penetrar neste corredor. Já sabia que as pessoas estão enclausuradas em vidros, isoladas e que teria um telefone para me ligar à minha amiga, que iria ser mediador de abraços com as minhas palavras e com sorte, os disparates que conseguisse dizer para animar. Prometi que o vidro não iria separar o que nos une como companheiras de guerra.
Só que nesse caminho, não estava à espera de encontrar um soldadinho, pensei que para a guerra iam só maiores de idade. Então na caixinha de vidro imediatamente antes do aquário da minha amiga estava um bebé. Desarmei!
No corredor, o pai, ao telefone, em lágrimas…lá de dentro a mãe…Esta parte nem consigo descrever pois deixei de olhar e pensei e se fosse eu? Como?
Então nessa altura, desarmei…e não me lembro se sorri do lado do vidro, se disse disparates, nem tão pouco se falei. Sei que contive a expiração uns minutos e trouxe comigo aquele bebé, aquela mãe, aquele pai e as minhas lágrimas…Guardo aquela imagem no mais profundo de mim para que se entranhe a imensa gratidão que tenho pela vida, por proteger os meus filhos da doença. Guardo aquela imagem com admiração pelos pais pois não deve haver dor maior que ver um filho sofrer! Guardo aquela imagem pelas crianças resilientes que nem a sua dor consegue esconder um sorriso nem retirar esperança. Para mim, estes são seres abençoados e neste texto resolvi prestar-lhes homenagem.
Não é este o meu objetivo único, gostava que a gratidão entranha em mim, aflorasse nas minhas palavras e que se sintam gratos quando têm filhos fora do vidro, em liberdade e saudáveis.
Para concluir e o mais importante, quero deixar uma mensagem, que podemos dar sempre muito de nós com pouco. Há crianças e adultos que precisam de nós para passarem para a outra margem. Eu não posso ser dadora de medula, mas espero que com as minhas palavras tenham encontrado uma ou um!
Já pensou que pode existir uma vida do outro lado do vidro que depende de si?
Obrigada