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Do Desapego...

As Mães são afeiçoadas, dedicadas, apegadas... diria que é quase uma condição inata à maternidade. 

Apegam-se aos filhos que chegam como se fossem a sua própria continuação, e naquele período de dúvidas, de mudança e agitação que dura alguns meses após o parto, Mãe e bebé vivem quase que em modo simbiose.

É preciso alguma resignação para aceitar que, apesar do bebé ter sido só seu durante nove meses, quando nascem, estes bebés "desapegam-se" para o mundo e a unidade Mãe e filho transforma-se em relação, em vínculo, em laços. 

Ao perder-se a "fantasia" da tal unidade, a mulher que foi Mãe, precisa de voltar a reencontrar-se em si própria muito além do seu papel de Mãe.

Mas não, as Mães continuam a apegar-se, mas agora a uma função, a um papel que a mais ninguém cabe, que mais ninguém sabe ocupar, que mais ninguém tem capacidade, como se, sem a Mãe, o bebé perdesse a fonte onde encontra tudo que precisa para ser no mundo.

Viver nesta "fantasia" faz de nós indispensáveis e faz com que deixemos de pensar no que há para além de ser Mãe.

As Mães são como que gerentes da própria vida e da vida familiar no geral, assumem responsabilidades domésticas, cuidam dos filhos, frequentam a farmácia com mais regularidade que o cabeleireiro e manicure, dormem pouco ou nada, comem a meias, em prestações ou às escondidas, enlouquecem regularmente, olham-se ao espelho com ar de espanto por deixarem de ter sido aquela que eram antes de ser Mãe ...

... mas às vezes as mulheres que somos gritam para continuar a existir, estão cansadas de ser Mãe, cansadas de ser gerentes, as que cuidam de tudo, as que tentam manter a paz, o futuro dos filhos, o bem estar da casa, e às vezes só querem ser apenas elas próprias, debilitadas, cansadas, humanas, Mulheres, e nós, nós mandamos calar.

Esta sou eu...
Sem vergonha nenhuma de dizer que não sei praticar o desapego!