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A benção de um segundo filho

A benção de um segundo filho é saber desfrutá-lo como se estivesses a fazer parapente, num céu de Verão, porque sabes, de voos anteriores, que o tempo voa mesmo. É sugar o tutano de cada pormenor de um trilho já conhecido e que, ainda assim, te surpreende com novos hotspots cada dia. É apreciares o desafio de escalar falésias de embalos ou gozares, deliciado, banhos refrescantes mesmo que não sejam esses, em águas turquesa do mar de Bali.
A benção de um segundo filho é a tranquilidade de estar alinhada comigo mesma, como se a minha alma estivesse hospedada, para sempre, num monte com vista para a infinita planície alentejana. É deixar-me ir à boleia do cruzeiro da confiança que tenho no instinto dos meus filhos.
A benção de um segundo filho é brindar a cada sorriso desdentado, a cada olhar ternurento como se saboreasse um copo de tinto, num pôr do sol quente de uma ilha a Sul ou num jantar sob as estrelas de um alpendre fresco do Norte. É aproveitar cada minuto como raios de sol fugazes, é dar graças a cada luz da madrugada que se testemunha, mesmo sem ter sido por estar a dançar na Indústria até fechar. É trocar a make up perfeita por um moreno sincero, o salto alto por um vestido leve, esquecer o batom e carregar no sorriso. É aprender a descomplicar tarefas, abrandar, desvalorizar rotinas e horários como se estivéssemos a acampar em Milfontes, é deixar de controlar tudo a toda a hora e acreditar que neste avião não tenho de ser eu o comandante.
A benção de um segundo filho é voltares a pôr a vida em perspectiva como quando viajas para um lugar onde nunca estiveste antes. E é também a sabedoria de fazeres a peregrinação pela segunda vez, já sabendo que não “vai melhorar” e gozar por inteiro exatamente o que é. Perceberes que voltaste a pôr coisas a mais na mochila mas desta vez não pensares duas vezes antes de as largares porque sabes que o caminho se faz melhor com menos.

A benção de um segundo filho, aos 38, é, como aos vinte, ter a certeza absoluta sintética analítica que os beijos nunca chegam, os mimos são o sal da felicidade e que amor também se podia dizer Verão.