0

Sou Encarregada de Educação… E então?



Findo o ano lectivo, as nossas cabeças já só pensam em acordar mais tarde, deitar mais tarde, praia, piscina, campo, muita diversão, brincadeira, aventura… enfim descomplicar o dia-a-dia, aliviar o stress e descansar bem!
Já está no ar um cheirinho a férias!
Mas férias também é tempo de reflectir e na verdade, sinto agora necessidade de parar para pensar… sobre o ano (lectivo) que passou: Correu tudo bem? Estive presente? Estive atenta? Participei? Poderia ter feito mais? E melhor?

São algumas questões sobre as quais reflicto e escrevo em relatórios enquanto professora, mas enquanto mãe, essas questões fazem-me meditar mais ainda. E quer queira quer não, torna-se quase impossível dissociar as minhas concepções de professora das de mãe no que respeita ao papel dos encarregados de educação (EE) face à escola e da escola face aos EE.
É sobre isso que vos vou falar.
Tentarei abraçar este tema, evidentemente com base na minha experiência de professora e de mãe. Não posso esquecer nem deixar de referir que há mais tempo que sou professora do que mãe, e que isso influencia de alguma forma a minha forma de ver as coisas, e ainda que nunca se sabe tudo sobre rigorosamente nada. Portanto, deixo-vos a minha perspectiva deste assunto que não se esgotará no que aqui escrevo, mas que tenho de resumir, ou então escreveria um livro!
A relação EE (família)/escola é assunto muito debatido, estudado e documentado. Academicamente falando, “quanto mais estreita a relação entre escolas e famílias, maior o sucesso educativo das crianças e jovens” (Silva, 2008). Estou completamente de acordo. De uma forma geral, quando existem condições de parte a parte para que se envolvam as famílias na vida escolar, as escolas têm oportunidade de conhecer melhor o enquadramento familiar dos alunos e como tal, é mais fácil e vantajoso acompanhar as especif
icidades de cada um e portanto agir em conformidade e de modo a promover sucesso, e por outro lado, as famílias podem acompanhar mais veementemente as actividades e desenvolvimentos das suas crianças.
Mas depois vêm os constrangimentos… Apesar de a legislação em vigor permitir uma participação dos pais/EE na vida escolar dos seus educandos, na prática, essa participação afigura-se mais pobre do que seria desejável. “Externamente, uma combinação de incompatibilidade patronal, escassez de tempo/disponibilidade e inexistência de tradição participativa representam um entrave à plena participação dos pais no processo educativo e organizacional da Escola”. (Gouveia, 2009). Esta afirmação resume bem a realidade. Encaixar as participações dos pais nos horários dos seus empregos e nos das escolas é tarefa difícil, mas não é impossível. Talvez a disponibilidade pessoal e a tradição participativa estejam bem mais relacionadas com a (não) participação dos pais nas escolas, mas isso depende também da motivação que cada escola e que cada educador/professor transmite às famílias. Tem a ver com a abertura da escola à comunidade. Mas não só. Notas inscritas no artigo de Sá (2002), a propósito da recolha de alguns depoimentos de docentes relativos à falta de interesse dos pais/EE, encontramos a ideia de que os pais/EE deixam unicamente à Escola a responsabilidade dos seus filhos, sendo a sua principal preocupação entregarem-nos à porta da escola para irem buscá-los no final das actividades”.
Na minha opinião, este estudo demonstra uma realidade um tanto ou quanto exacerbada, mas que, se torna mais verdadeira e tanto mais difícil de contrariar, quanto mais adiantada é a escolaridade em que nos concentramos.
Na verdade, os primeiros anos escolares (Pré-escolar e Primeiro Ciclo) são os mais marcantes neste processo. Há, durante estes anos enorme espaço e significância para que se desenvolvam interacções entre a educação formal (escola) e a informal (família). São as fases em que por natureza as crianças mais dependem de acompanhamento e presença física dos seus EE na escola. Como tal, acabamos por estar mais em contacto com a comunidade escolar e isso acaba por induzir a uma maior abertura para integrar essas tão desejáveis cooperações com as escolas. Aproveitando estas relações mais próximas com as famílias, as escolas podem (e devem) inclui-las mais directamente nas suas actividades. E há múltiplas formas de o fazer.
Já do lado dos pais, também existem diversas formas de estar em contacto com a escola e inclusivamente desenvolver funções integrantes, estruturantes e organizativas das actividades escolares como por exemplo desde a colaboração em associações de pais e encarregados e educação, à presença no concelho geral como representante de EE. Não esquecendo os constrangimentos das vidas pessoais e profissionais de cada um, as horas tardias e as prolongadas reuniões que se verificam na realização destas tarefas, a participação dos EE na dinâmica educacional, como em muitas outras vertentes de se ser mãe ou pai, implica vontade, dedicação e até algum sacrifício. É uma questão de cidadania ativa e “voluntariado parental”, considero.
E é por estes e por outros motivos, que estar nos dois papéis em simultâneo é complexo e se por um lado enquanto professora dou comigo a pensar como seria desejável que os EE se empenhassem mais no acompanhamento e na participação activa na vida escolar dos seus educandos, por outro lado, como mãe, dou comigo a auto-avaliar-me enquanto EE que sou!
E para ser verdadeira, tenho de admitir que não sei se sou ou serei uma EE como desejaria… Mas por agora, este ano lectivo que agora finda, foi mais determinante a minha presença e acompanhamento na escola da minha filha mais velha do que na da mais nova… Porquê? Porque para a minha filha mais velha, a transição da creche para o pré-escolar (escola pública) e todas as alterações no modus funcionandi do seu dia-a-dia foram desafios exigentes e surpreendentes. E não fica por aqui. No próximo ano lectivo ingressa no 1º Ano do 1º Ciclo e novas alterações se avizinham. A mais nova ainda ficou na mesma creche, menos sujeita a tantas mudanças. Contudo, também para ela o próximo ano poderá trazer novidades. Já terá idade para ir para o pré-escolar na escola pública, e dou comigo a pensar se sim… se (ainda) não (mas isso… é outra conversa)...
Para mim também foi ano de muitas novidades e adequações inerentemente necessárias tanto em termos profissionais como em termos familiares… e nem sempre práticas ou simples de gerir. Fui enfrentando os desafios, conjugando as nossas vidas e as nossas experiências da melhor forma que consegui. Participei nas actividades para as quais fui solicitada. Por exemplo, na escola da mais velha, fui à sala “dar uma aula” relacionada com a minha área (ciências) a pedido da educadora. Achei o máximo! E não fui a única! O meu marido também lá foi “dar uma aula” de educação física com outro pai para os miúdos e para os seus EE! Outros EE foram também explicar o que é a sua profissão, ou realizar actividades de que todos gostaram imenso. Uma vez por mês, havia a “Aula Aberta”; uma possibilidade de estarmos com os nossos filhos, na sua sala de aula, com a sua educadora e auxiliar, em que realizámos actividades muito variadas. Realizava-se logo de manhãzinha, aproveitando aquela hora em que os vamos deixar, mas somos convidados a entrar e participar! Íamos ficando a par de tudo e conhecendo-nos uns aos outros de forma contínua, natural e descontraída! Foi uma excelente forma de a escola enquadrar os pais/EE nas actividades das crianças e de elas sentirem uma saudável relação entre a escola e a família, sem grandes colisões entre as nossas vidas pessoais e profissionais. Digo isto, porque as horas de “Aula Aberta” foram sempre muito participadas. Se havia constrangimentos laborais para os pais, a verdade é que o que senti foi que todos arranjaram forma de estar com os seus filhos naquele tempo. Se não estava o pai estava a mãe, às vezes estavam os dois, ou um avô ou uma avó… E isso é que é importante! Alguém estava lá a aproveitar a oportunidade para estar com os seus pequenotes! Dava gosto ver e sentir!
Também me integrei na associação de pais e encarregados de educação, em que contribuímos para a realização de actividades como teatros, festas e comemorações. Nem sempre foi de ânimo leve que fui às reuniões tardias, mas valia a pena. Posso dizer, que esta escola é aberta à participação da comunidade e que isso é extremamente enriquecedor. Facilitou imenso a minha percepção do desenvolvimento ma minha filha face à turma em particular e, às experiências na escola, em geral. Foi uma forma de me relacionar com as pessoas que fazem parte do dia-a-dia- dela na escola.
Na creche da mais nova, também foram muitas as actividades desenvolvidas que apelaram à presença dos EE e familiares na escola. As comemorações do dia do pai, dia da mãe, dia dos avós, por exemplo. A apresentação das actividades extracurriculares como a música, o inglês, a ginástica… O teatro de Natal, organizado e protagonizado pelas educadoras e auxilares, o desfile de Carnaval, a festa de final de ano…em fim… imensas actividades que abrem a escola à comunidade e que trazem tudo de bom para todos!
Nas duas instituições, também participei nas reuniões de pais e, fiz questão de ser recebida pelas educadoras uma vez por período. Gosto de ter conversas particulares com as educadoras sobre o desenvolvimento das minhas filhas. Gosto e preciso de estar atenta e de ser cúmplice com as pessoas que na verdade passam mais tempo com elas do que eu… E por fazer parte destas coisas todas, posso todos os dias ir trabalhar descansada, sabendo que as minhas filhas estão com pessoas em quem posso confiar e que fazem tudo por elas e para que cresçam saudáveis e felizes em relação à escola. E esta é a altura das suas vidas que precisam aprender e sentir que a escola é fundamental nas suas vidas. Mais tarde, estas relações escola/família tendem a dissipar-se… Há que aproveitar agora, enquanto são pequenas e dependentes de nós, mães, pais e avós… Digo eu… pois imagino que qualquer dia, estão já mais crescidas e nem a escola é tão aberta, nem elas nos querem tão por perto.
Mas ser encarrego de educação não é “só” isto. Se pensarmos bem nas duas palavras que compõem o termo, ser Encarregado de Educação pressupõe que exista da nossa parte, além da participação na vida escolar, um acompanhamento, orientação e promoção da articulação entre a educação na família e o ensino escolar. Cabe-nos essencialmente o diálogo com os nossos filhos, para melhor os podermos conhecer enquanto pessoas únicas, autónomas e sociais que são quando estão na escola. Quer queiramos quer não, os nossos filhos, não são extensões de nós próprios. Eles são providos de personalidade e vontade próprias. E nós, mães e pais temos de saber aceitar, apoiar e promover isso mesmo!
E é geralmente neste espaço que tenho mais dúvidas… Farei bem instruir isto ou aquilo? Em que circunstâncias devo intervir? Devo ajudar nos trabalhos, ou deixar que façam sozinhas? Sei lá… tantas perguntas …
Não tenho respostas concretas. Nem para mim, nem para ninguém… Na verdade, tudo depende um bocadinho do bom senso de cada um e da qualidade de conhecimento que cada EE tem acerca da personalidade e vontade próprias de cada criança/adolescente/jovem. Não há receitas para relações interpessoais. Mas também não é possível fazer “undo” nas experiências da vida…
Por isso, o conselho que vos deixo, é que se dediquem a conhecer as “pessoas pequeninnus” que têm. Mantenham sempre uma comunicação muito activa, sejam os melhores ouvintes e, usem e abusem do amor que vos une para obterem boas e saudáveis relações. Acompanhem a vida escolar dos vossos educandos dentro e fora da escola. Quanto mais acompanhados e amparados se sentirem… melhor para todos!


Obrigada pela vossa atenção!