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Querido Quico | Carta ao meu filho com paralisia cerebral 2

Querido Quico,

Tenho andado muito pensativa.


Sei que fiz mil coisas nos teus primeiros 5 anos. Corremos mundo à procura de terapias e sobretudo da cura, fizeste tratamentos perigosos, morámos em Cuba, no Algarve. De 3 em 3 meses íamos para Madrid, fomos para Santiago de Compostela, Alemanha. Só não fomos à China mas quase que os nossos amigos açoreanos nos convenciam.


A mãe abriu uma clínica especialmente para te tratar, a ti e a todas as crianças que precisavam de tratamentos e em Portugal não havia.


Tudo para te ver sentar, andar, correr, brincar sozinho, comer sozinho e falar.


Chegaste a fazer 7 horas de terapia por dia.


Passaram 9 anos. Nada disto aconteceu.


Por um lado, o meu coração descansou porque aceitei que eras assim. Também sei que isso veio dar muita paz ao teu coração e passaste a ser mais feliz. Fui muito exigente e pedia-te muito. Sentias que eu não te aceitava.


Perdoa-me. Queria muito que fosses igual aos outros. Não vi que a virtude está em ser diferente. E que o amor está em aceitar.


Vi muitos casos como o teu, uns melhores e muitos piores. Nunca li com agrado quando as mães escreviam que aceitavam. Isto é duro e a revolta e o sentimento de impotência é mais que muito.


Mas hoje aceito que tu, tal como os teus dois irmãos (e todas as crianças para os seus pais) são especiais. E devemos aceitá-las como são. Eu aceito como és. Só tenho pena que não te consiga entender e não possamos falar mais.


Mas como ia dizer, tenho andado pensativa. Fiz tanto nessa altura. Depois vieram os manos, eu aceitei como és, será que faço tudo o que posso por ti? Que mais posso fazer? Dou-te o meu amor, a minha entrega. Que mais te posso dar?


Ouço a tua voz no meu coração e sei que dizes que faço muito. Mas que posso fazer mais?


Temos que ter mais das nossas conversas silenciosas, agarradinhos um ao outro...

Da tua mãe,