0

Parto humanizado

Se há coisa que me faz mudar de canal ou, na impossibilidade de o fazer por ser uma situação cara- -a-cara, desligar o sentido auditivo são os pleonasmos desnecessários ou simplesmente absurdos: “um ser humano muito humano” ou “uma pessoa muito humana”, são exemplos disso.
Sim, ok... percebo o sentido: evidenciar as qualidades humanas de determinada pessoa. Mas nem assim faz grande sentido porque os humanos não são só qualidades e há adjectivos que cumprem essa missão de forma muito mais eficaz e esclarecedora: generoso, afectuoso, compreensivo, empático, cuidadoso, simpático, atencioso, espectacular … Mas, pronto, admitindo que a humanidade é um poço de virtudes e que classificar alguém numa escala de humanidade, enquanto adjectivo, é enaltecer as qualidades da espécie... fazendo esse esforço estóico, a coisa vai.
Por outro lado, falar em parto humanizado que, à partida poderia parecer também um pleonasmo desnecessário, já não o é. Embora muitas pessoas (quiçá algumas das que utilizam o “outro” pleonasmo que me eriça os cabelos) nunca tenham pensado em juntar estas duas palavras ou classificar assim o parto, a verdade, a dura realidade, é que se trata de uma caracterização e distinção necessárias. Infelizmente. E é necessária para (se) destacar (de) realidades diferentes, onde no lugar do adjectivo “humanizado” estão outros menos quentes e prazerosos, que em vez de nos transportarem para as qualidades humanas são um bilhete de ida para as suas dimensões menos virtuosas, instintivas, respeituosas, informadas. É uma adjectivação que não recorre ao pleonasmo para se distinguir do rol de partos que não cabem  na categorização que cria. Seria, sim, de desejar que fosse uma adjectivação fútil e mais um pleonasmo irritante, de tão desnecessário, mas não é. Porque há os partos humanizados e há os outros, marcados e marcantes para sempre por outros adjectivos: medicados, intervencionados, medicalizados, frios, traumáticos... Realizados em ambientes que pouco ou nada se esforçam para reproduzir e viabilizar o padrão natural do parto. Sim, há um padrão fisiológico que enquadra tudo o que fazemos enquanto seres humanos que somos (isolando aqui a dimensão social que também nos molda, enquadra e guia), independentemente do grau de humanidade com que nos classificamos ou somos classificados por terceiros (muito humano, pouco humano, nada humano...).
O padrão fisiológico do parto não é difícil de explicar nem de compreender. Sei-o com a certeza da experiência de quem o conta inúmeras vezes a diferentes mulheres e casais que querem perceber melhor a “mecânica da coisa”. E tudo se encaixa porque é ciência, mas também porque nos faz sentido.
A abordagem fisiológica do nascimento diz-nos que a maioria dos partos se inicia ou acontece durante a noite e explica-o: por sermos mamíferos diurnos desenvolvemos esta tendência/padrão como estratégia para reduzir a adrenalina e facilitar o isolamento e a privacidade. Em forma de alegoria (que no fundo é real, mas de tão distante mais parece um conto), a mulher sentia o momento do parto a aproximar-se com os sinais iniciais do trabalho de parto ao final do dia, dirigia-se sozinha ou acompanhada por outras mulheres para um local isolado e seguro (uma caverna, uma casa mais afastada...), realizava esse trajecto ainda com alguma luz evitando eventuais perigos ou predadores que poderiam atacar no escuro; já na segurança do abrigo, o trabalho de parto evoluia e já de madrugada, antes dos primeiros raios de sol, dava-se o parto. Já com luz, a mulher tinha a segurança necessária para o caminho de regresso a casa. Só aqui encontramos pontos-chave que parecem esquecidos no frenesim das salas de parto e maternidades da maioria dos hospitais e que reflectem as necessidades básicas da mulher em trabalho de parto, definidas pelo médico Michel Odent: redução da luz, redução da linguagem, privacidade, sentimento de segurança e conforto térmico. E ao aprofundarmos um pouco mais a questão, juntamos fisiologia e anatomia e tudo fica mais claro: no trabalho de parto são activadas mais as partes primitivas do cérebro – o hipotálamo e a pituitária – enquanto que o neocórtex – zona mais “nova” do cérebro e onde se produz a linguagem falada e o pensamento - diminui a sua actividade. Ou seja, somos, nós mulheres em trabalho de parto, guiadas por um cocktail primitivo e refinado de hormonas, se nos deixarem e se quisermos. Se nos deixarem iniciar o trabalho de parto espontaneamente, se nos deixarem sentir o trabalho de parto, se nos derem tempo para que as hormonas façam efeito, se nos derem tempo, se nos derem tempo, se nos derem TEMPO! (refiro-me aqui apenas a casos em que não há condições clínicas diagnosticadas e suportadas por evidência científica que inviabilizam, por risco para mãe e/ou bebé, o caminho natural da fisiologia do nascimento. Refiro-me, então, à regra e não à excepção baseada em evidência).
Em meio hospitalar (corrigindo: na maioria dos hospitais) não há tempo. Não dão tempo à mulher e ao bebé para que vivam o seu processo respeitando os princípios da fisiologia do nascimento. As salas onde decorre o trabalho de parto são luminosas, muitas com aquela luz fria, branca, artificial que o nosso cérebro interpreta como “é de dia!” e dá ordem para a libertação de adrenalina. São barulhentas: o enervante e “adrenalizante” pipipipipipipipipppiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiipipipipipi do CTG que o nosso cérebro interpreta como sinal de alarme e que tanto dificulta o relaxamento e tranquilidade necessárias. É, invariavelmente, imposta à mulher restrição de movimentos, limitando-a à posição de decúbito dorsal que em nada promove o decorrer do trabalho de parto, que se quer em união com a força da gravidade e as básculas da bacia. Ouvem-se outras mulheres que gritam no normal processo de lidar com a dor e vozes mais altas que as calam porque na nossa sociedade “gritar é feio”. Se ao menos a nossa sociedade se permitisse, respeitasse e trabalhasse as vocalizações como algo de natural e fisiológico... No trabalho de parto são, inclusivamente, uma poderosa ferramenta para lidar com a dor: ajudam a regularizar o ritmo respiratório em função das necessidades, a voltarmos o foco para nós, para dentro, para o processo, para o instintivo e fisiológico.
As salas onde decorre o trabalho de parto são luminosas, barulhentas e movimentadas: entram e saem médicos e enfermeiros a todo o momento piorando tudo quando, para além de não respeitarem as necessidades básicas da mulher em trabalho de parto, não respeitam a mulher. Quando fazem rondas com internos em que cada um passa pela experiência de observar e tocar na vagina da mulher, quando mudam de turno e voltam a tocar, quando não olham a mulher nos olhos, não a ouvem, não a reconhecem, não a informam do procedimento, não lhe pedem o consentimento, não a respeitam!
Imagino que possa parecer uma realidade absurda, um exagero, para quem nunca a viveu, quem não a conhece, quem não sabe que existe, mas é estúpida e traumaticamente real para quem a vive, ouve vários relatos na primeira pessoa ou observa diariamente. Existe e justifica a adjectivação que mais parece um pleunasmo, mas não é! Uma adjectivação que trilha um caminho, o único caminho, pela humanização do parto! Este caminho passa por reconhecer, respeitar e viabilizar a fisiologia do nascimento e as, já referidas, necessidades básicas da mulher em trabalho de parto: criando condições para que as mulheres estejam em ambientes em que a produção de adrenalina não se justifica, em que podem escolher a posição em que passam pelo trabalho de parto e em que vão parir, em que a ocitocina - hormona do amor, que se liberta em estados de tranquilidade, segurança e empatia - flui, nomeadamente com a presença do outro progenitor, reconhecido enquanto “parte daquele um” e não na sua figura legal de “acompanhante”.
Passa, também, muito pela mulher que vai parir, do seu acesso à informação isenta, fundamentada e suportada pela evidência científica e pela experência, de forma a que possa tomar decisões informadas, sempre. Sem julgamentos sobre o tipo de decisões, sem pressão, sem desinformação, sem tabús. Passa pelo resgate do protagonismo da mulher no parto, como mulher que sabe parir; pela sua consciência plena desde a concepção e durante a gestação. Passa por uma mudança de paradigma na formação das equipas de obstetrícia e profissionais de saúde em geral e por uma mudança social profunda na forma como lidamos com a mulher que vai parir ou já pariu.

(Ressalvando o que considero desnecessário, mas antecipando a polémica, nada disto é exclusivo de quem quer parir de forma natural, sem analgesia, sem intervenções desnecessárias ou que carecem de suporte científico. Não. O respeito é geral e devido a todas as mulheres. Sejam quais forem as suas opções. Sejam quais forem as suas crenças, nenhuma mulher deverá sentir-se desrespeitada, invadida, violada, invisível, isolada, abandonada, com medo... no momento de parir. Nenhuma!)