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Os nossos filhos, os meus alunos

Nesta altura do ano, depois de lecionar Matemática o ano inteiro a muitos alunos desmotivadas (muitas vezes conteúdos programáticos que estão completamente desajustados dos seus interesses) e após tentar preparar como mãe o meu filho para as provas de 2º ano (como se isso fosse espelhar o ano inteiro de trabalho de um bom professor e qualifica-lo de mau ou bom professor) só tenho Matemática nas palavras e Matemática nas emoções.
É com grande dificuldade que tento motivar alunos adolescentes para aprender a Matemática que eles rejeitam desde há alguns anos, a Matemática que não entendem e a Matemática que está desajustada muitas vezes da capacidade lógica-formal a que o seu raciocínio está capacitado. Tudo isto gera desmotivação.
Como mãe, tenho acompanhando os primeiros anos de escolaridade do meu filho mais velho e percebi que a desmotivação vem desde aí. O aluno que começou a coxear no primeiro ciclo deixa de conseguir andar, quando lhe pedem para correr nos ciclos seguintes.
Ao abrir a primeira página de um dos livros de Matemática de 1º ano do meu filho perguntam o cardinal do conjunto.  Será que posso perguntar às leitoras o cardinal da sua família?
Agora no 2º ano prepara-se para as provas realizando fichas de formatação de alunos, como se fossem um processo de produção e eu como professora e como mãe, entro no sistema.
Ainda não percebi o que está certo?! Eis que o meu filho e um amigo não entendem conceitos tão básicos para o 2º ano como a notação para reta, semirreta e segmento de reta. Após ter ido dar uma aula de 9º ano e reparar que os meus alunos com 14 anos também não reconhecem estes conceitos decidi ser tolerante e esperar que um dia o meu filho os apreenda, ao seu ritmo sobre o risco de não ser um ano Muito Bom, a sua professora estatisticamente não ser a melhor e eu como mãe e professora de Matemática não ser competente! Como mãe não me interessa apenas que o meu filho saiba fazer contas de dividir se não souber dividir o melhor de si com os outros. Com esta preocupação do Ser por vezes negligencio a do Saber.
Talvez tenha que incutir mais valores de trabalho e prática em casa, mostrar que é com espírito de sacrifício e dedicação que alcançamos objetivos. Por outro lado, os nossos filhos são crianças e a infantilidade não volta atrás e vivida com intensa carga horária na escola sobra muito pouco tempo para ser criança.
O ano letivo terminou e vou com estas dúvidas apanhar banhos de sol mas penso que a educação deste país tem que se banhar de outros interesses que não devem ser reduzidos a metas curriculares. Pensemos em metas sociais (cumprimento de regras, disciplina na sala de aula, solidariedade, respeito pelo outro, trabalho em equipa), metas individuais (interesse por aprender, curiosidade, pesquisa autónoma, criatividade, adquirir conhecimentos, autonomia na resolução de exercícios, leitura, interpretação e escrita) e metas emocionais (compreender-se e aceitar-se, lidar com o insucesso, ter objetivos e saber lutar por eles, ser livre, afirmar-se, ter valores, ser feliz).