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Educar um filho entre duas religiões



Pensei muito sobre revelar ou não este detalhe da nossa vida. Detalhe, porque para nós, não é mais do que isso, mas é o suficiente para nos tornar uma família diferente. Não tenho vergonha alguma das minhas origens (aprendi desde cedo a respeitar o próximo), mas sei que por ter sido educada e criada noutra religião tive sempre que lidar com a diferença e fui alvo das típicas piadas fáceis e cruéis dos miúdos. Com a idade (felizmente) aprendi a desvalorizar e também aprendi a não me diminuir – por ser diferente não sou menos do que ninguém. No entanto sou sensível e sei que este texto também pode originar um sem fim de comentários maldosos ou dar origem a juízos de valor errados sobre mim, comuns a quando alguém sai “fora do formato”. Talvez possa até perder seguidoras ou, se calhar, até vou ser surpreendida e ter pessoas do outro lado que se identificam com a situação. Para o bom e para o mau, esta sou eu, estes somos nós.
E, sendo este um espaço de vivências e partilha da vida real, resolvi dar vida a este tema, quase sempre polémico, para passar o testemunho de uma família multi-religiosa – a nossa – onde existem crenças diferentes, sem que isso seja um problema para a educação do nosso filho.

Como funciona a nossa família?
O Diogo é batizado, eu não sou (os meus pais deram-me livre arbítrio para decidir o caminho). Ele tem o crisma, eu tenho anos de estudo bíblico (os suficientes para conhecer muito bem a bíblia). Como fio condutor temos em comum o cristianismo, a fé em Deus e acreditar em Jesus, Maria e José. Ele acredita em Deus e tem fé em santos/ figuras religiosas, eu acredito que só devemos adorar a Deus – o criador de todas as coisas. Ele teve sempre Natal e festas de aniversário. Eu nunca tive e como nunca tive, nunca me fez falta. Acho que por esta altura já perceberam que os meus pais são Testemunhas de Jeová. Não sendo batizada nem praticante não tenho nenhum vínculo formalizado com nenhuma religião, mas obviamente que tendo sido educada noutra religião é para lá que “pendo” naturalmente. Como casal, temos diferenças, obvias e incontornáveis na forma de autenticar a nossa fé, mas é no bom senso que nos centramos para funcionar e para educar o Duarte – já sabíamos que ia ser assim.
O foco principal, partindo do cristianismo, está na simplificação, de forma a transmitir ao Duarte uma mensagem comum, tal e qual como quando explicamos a uma criança que por mais cores e formatos que tenhamos, somos todos o mesmo: humanos! Com a religião seguimos o mesmo molde: transmitimos ao Duarte a existência de Deus para todos. E, acima de tudo, damos-lhe as bases de respeito, igualdade e equidade para aplicar na vida futura, da forma que ele quiser.

Como encontramos equilíbrio?
Educamos com premissa de direitos iguais sobre o conhecimento de uma religião e da outra e exploramos os pontos comuns das nossas crenças. Existe Deus, que criou todas as coisas. E Deus teve um filho – Jesus Cristo – que nasceu em Jerusalém, e que é filho de José e Maria e que veio à terra para pregar a palavra e dar a vida por nós (a mesma educação moral e religiosa que se aprende na escola, sem apontar o dedo a se uma religião está mais correta em detrimento da outra, para o Duarte, por enquanto, só existe esta versão simplificada). Quando ele for mais velho, terá tempo para colocar as questões que quiser e seguir o caminho que quiser. E quando as perguntas surgirem, vamos aplicar o máximo de transparência sobre o que cada religião tem de diferente.
As datas com “maior potencial de confusão” são o Natal e os aniversários, onde só os avós paternos comemoram e dão presentes. Os meus pais por sua vez presenteiam-no noutras alturas (bom comportamento, festa de final de ano da escola, almoços de família, etc.). Acaba por ser um sortudo pois recebe presentes o ano inteiro, com conta e medida. Fora isso, temos aquilo que eu vou chamar de “zona neutra” para as outras ocasiões, por exemplo, casámos pelo registo para que todos pudessem aproveitar a festa de igual forma e optamos por não batizar o Duarte para que o possa fazer mais tarde, caso seja a sua vontade.

A regra de ouro… focar no que realmente importa!
Numa altura em que o mundo é, lamentavelmente, mais uma batalha de ideais políticos, económicos e religiosos não devemos perder o foco essencial da existência do ser humano – o respeito pelo próximo. E para isso existe apenas uma fórmula que nem precisava vir escrita na bíblia – (educar para a) igualdade. Educar sem alcunhas, educar sem apontar o dedo, educar sem diferenciação de “aquele é isto” e “tu és aquilo”. No fundo, é só isto, incutir na geração futura uma consciência de vida multicultural com respeito multirreligioso (e não vamos trazer para este saco o Daesh, ok? Não vamos confundir a religião muçulmana com grupos terroristas).  
Estes somos nós!